Votar? P´ra quê? — Opinião de Sofia Ribeiro

sofia-ribeiroFico surpreendida quando me deparo com incentivos públicos à abstenção. A maior parte deles sub-reptícios, que ainda há algum decoro intelectual, mas que, invocando uma putativa falta de diferenciação nas listas candidatas como justificativo de uma incapacidade de escolha, não deixam de constituir um incentivo à não participação nas eleições.

“Os políticos são todos iguais”, ouvimos. Mas se cada um que exerce ou que se apresenta a eleições para um cargo político tem o dever de fazer uma auto-análise para conduzir a sua acção pela distinção e pela diferenciação que se requer quando se representa um co-cidadão, parece-me demasiado redutor, por parte daqueles que apelidamos de fazedores de opinião, que se coloque tudo dentro do mesmo saco. Correndo o risco de parecer simplista (nem que seja por oposição ao exagero da expressão), recordo ao leitor que ninguém é igual a ninguém, e preocupa-me muito que, ao invés de discutirmos programas de candidatura e objectivos de desenvolvimento estratégico em diferentes domínios, estejamos toldados por uma indiferenciação generalizada que obedece a interesses de contestação intra-partidária e não se circunscreve a uma eventual descrença nos projectos apresentados. O incentivo implícito ou explícito à abstenção constitui, muito para além do marco da não capacidade de tomada de decisão nas urnas, um mecanismo de contestação das lideranças e visa, não raras as vezes, o desgaste da imagem dos candidatos, estejam eles ou não no poder.

Há, assim, uma forma de persuasão massiva que, nada tendo de contestatária, visa interesses particulares de contestação dos candidatos. Admito que, após a análise dos projectos das várias listas e das especificidades e competências dos candidatos, possam subsistir dúvidas quanto à escolha que deve ser feita, mas recordo ao leitor que todos nós temos o dever de exprimirmos a nossa opinião. Feita a análise comparativa dos candidatos, caso entendamos que são assim tão indistintos que nenhuma lista merece a nossa selecção (o que me parece demasiado castrador da nossa capacidade de escolha), há sempre uma alternativa à propalada abstenção: o voto em branco.

No próximo Domingo, apelo ao leitor que não fique em casa. Antes de mais, porque o direito ao voto deve ser valorizado, como forma de democratização da acção política. Façamos jus à nossa história e não deixemos de votar. Honremos todos aqueles que lutaram para conquistar o direito ao voto das mulheres e das minorias étnicas, rejeitando que o direito de sufrágio fosse apenas concedido às elites. Honremos os percursores do regime autonómico regional, que se insurgiram há quarenta anos para que os Açores tivessem um Governo próprio e um Parlamento específico. Não votar é renegar o 25 de Abril e a Autonomia Regional.

Apelo, assim, ao leitor que não prescinda do seu direito, recordando, em simultâneo, que deve cumprir com o seu dever. Há sempre uma escolha, mesmo que fique expressa numa não escolha, mas não podemos continuar a agir como se os actos eleitorais não fossem decisivos para as nossas vidas. Não podemos deixar que outros façam escolhas por nós, nem faz qualquer sentido pensar que uma não participação pode resultar num qualquer movimento reaccionário que mude a forma como se faz política. O amanhã constrói-se hoje e, como diria André Comte-Sponville, “não é necessário esperar para empreender, nem ter êxito para perseverar”. Ficar em casa em dia de eleições nada mais é do que mero comodismo, de desistência.

 

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