Viver no Triângulo — Opinião de Inês Sá

Cheguei já lá vão quase 10 meses e parece que ainda foi ontem. Nunca senti nenhum tipo de medo. Na verdade, desde que esta ideia de abandonar S. Miguel rumo à ilha do Faial foi colocada em cima da mesa, despertou em mim uma enorme vontade de me infiltrar nesta sociedade, em busca da provável constatação, ou surpreendente negação, relativamente ao cenário que por diversas vezes e diferentes pessoas, me fora traçado. Para além de meia dúzia de caixotes, do marido e dos filhos, fiz questão de não trazer comigo nenhum tipo de expectativa, até porque eu fui tão, mas tão feliz em S. Miguel, que julgo não ser sequer de elementar justiça, colocar a fasquia tão alta.

O primeiro desafio foi o de encontrar uma casa. Não é de todo fácil. O mercado imobiliário deve ter sido revisto em alta por estes lados! São inúmeros os imóveis para arrendar no centro da cidade da Horta, grande parte deles já com décadas de existência, isentos de qualquer remodelação ao longo dos anos, sobrevalorizados quanto ao valor do arrendamento e/ou venda. Valeu-me também aqui a colaboração incansável dos amigos nativos da terra, aliás como em quase tudo na minha vida. Outros desafios se seguiram, mas esses ficam para outras núpcias…

Sabia-me estranha aos olhos de todos aqueles, com quem por algum motivo me cruzava ao longo do dia. Desde o vizinho da frente, à jovem do café, à senhora papelaria, passando pela da lavandaria, pelos auxiliares da escola dos miúdos, pelos pais sempre presentes no campo de futebol, pelos colegas de trabalho, até pelo senhor da bomba de gasolina, os olhares que me eram dirigidos, transbordavam tanto de curiosidade, como de desconfiança. A sensação de estar a ser constantemente observada não é propriamente das melhores, embora não me intimidasse. Tenho aliás perfeita consciência, da imagem que se constrói à minha volta, quando esta tem apenas por base a aparência, socorrendo-me desavergonhadamente desta, de todas as vezes que opto por não incitar qualquer tipo de proximidade. Felizmente, são mais as vezes que me entrego, que invisto, que abro o meu mundo, que deixo cair a maquiagem, que substituo o nariz empinado – que para o bem e para o mal, me acompanha desde nascença – pela genuinidade empática de um simples olhar.

Foi assim que fui perdendo o meu estatuto de intrusa, que o olhar deixou de observar e passou a sorrir, que o cumprimento foi ganhando som, que a curiosidade deu lugar às perguntas, que o porteiro desconhecido da escola se tornou num importante aliado, indispensável quando o trabalho se estende, que o café passou a saber a aconchego, que o desencontro com as colegas de trabalho deu direito a um post-it mimoso, deixado na minha secretaria, guardado até hoje, com imensa gratidão, em lugar de destaque.

Mesmo sendo por natureza uma otimista convicta, naturalmente que nem tudo me encheu as medidas. É claro que sinto falta do cinema, do teatro, dos concertos, dos produtos fresquinhos da frutaria, da livraria aberta até à hora do jantar, dos meus vizinhos que se tornaram parte da família, dos conhecidos, dos amigos e familiares. Vicissitudes da vida! Certo é que assim será, pelo menos “enquanto houver estrada para andar”, porque “a gente vai continuar”.

No Faial não se respira apenas maresia, nem todos os dias se vive a euforia dos veleiros. Muitos são os dias em que a “majestosa” montanha do Pico se esconde por entre a bruma e se recusa aquietar o âmago de quem está deste lado do canal. E nestes dias, em que o oceano fica cinzento e o meu olhar não alcança o horizonte, é inevitável que se entranhe em mim o desconforto característico de alguma insularidade. É também por isso que, com a frequência possível, chegar ao fim de semana e embarcar rumo à ilha do Pico ou de S. Jorge, tem tanto de privilégio como de necessidade. Há de facto momentos em que a sensação de estar cercada por mar, num tão pequeno espaço de terra, tende a sufocar e aí, poder abandonar a ilha por 1/ 2 dias, mesmo que seja apenas por outra ilha de igual dimensão, não é de todo um capricho, mas pelo menos para mim, o garante de alguma sanidade.

 

Link permanente para este artigo: https://maiscentral.com.pt/viver-no-triangulo-opiniao-de-ines-sa/