Um retrocesso moral — Opinião de Maria do Céu Patrão Neves

Aconteceu recentemente: duas portuguesas foram insultadas e ameaçadas no Reino Unido pela simples razão de serem estrangeiras.

Também há pouco tempo, nos Estados Unidos, um empregado de mesa pediu o certificado de residência a clientes de ascendência mexicana antes de os servir. Desta vez, o empregado foi despedido pelo seu comportamento discriminatório. Prevaleceram os valores que construíram as democracias em todo o mundo, como sejam o respeito pela dignidade humana, no reconhecimento de que a pessoa vale absolutamente e em si mesma, e o respeito pela diferença, no reconhecimento de que somos todos diferentes e que é esta mesma diferença que nos identifica e enriquece.

O comportamento deste empregado seria impensável há meses atrás porque, ainda que no seu íntimo pudesse alimentar sentimentos discriminatórios, sabia que a sociedade censuraria qualquer atitude nesse sentido, não a admitiria, a condenaria. Hoje, porém, terá considerado que a identificação de imigrantes (e não sei se igualmente de turistas porque, afinal, estes também não têm certificado de residência nos países que visitam…?!) e sua subsequente expulsão, corresponderia ao padrão de procedimento preconizado na era Trump e promoveu-se a vigilante de uma nova ordem estabelecida. Esta interpretada “nova ordem” ainda não foi institucionalizada e, por isso, o empregado foi despedido. Mas, e se ele foi um percursor…?

Quanto às portuguesas, mãe e filha, cercadas por um grupo de jovens e agredidas com o arremesso de ovos, num ambiente intimidatório, fecharam-se em casa atemorizadas e ponderam regressar a Portugal. A queixa apresentada foi arquivada por falta de provas e sentem-se desprotegidas. Aliás, este não foi um caso isolado, sobretudo desde a votação favorável do Brexit e, mais uma vez, do suposto estabelecimento de uma “nova ordem”. Nos últimos meses têm-se registado numerosos episódios de xenofobia declaradamente cometidos por quem se considera autorizado a tal pela vitória do Brexit.

As sociedades abertas, diversas, tolerantes e pacíficas que hoje habitamos, e de que todos usufruímos para a realização dos nossos projectos pessoais, são o resultado de milénios de evolução, através do investimento de incontáveis gerações. Somos herdeiros deste bem precioso e único, de que raramente nos apercebemos. Focamo-nos sobretudo nas injustiças que a todos os níveis subsistem, nas múltiplas formas de violência que ainda não conseguimos suprimir, nas acções por cumprir e que conduziriam a um bem maior. E é bom que assim seja. Foi assim, afinal, que aqui chegámos. Foi através do esforço continuado dos que nos antecederam, que se tornou possível construir as sociedades pluralistas a que pertencemos e cujo retrocesso civilizacional e moral está gora iminente, através do recrudescimento da xenofobia, da intolerância e da violência.

Se não fomos antes capazes de evitar este recuo, que o tornemos então agora meramente provisório e efémero, não abdicando de construir uma sociedade mais justa para o amanhã.

 

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