Tragédias — Opinião de Maria do Céu Patrão Neves

Lembro-me perfeitamente onde estava e o que estava a fazer no dia 4 de Março de 2001, às 20:15 (hora dos Açores)… Consigo mesmo, hoje, olhar para o passado e ver-me como se tivesse tirado uma fotografia de mim própria, naquele momento. Este é um dos efeitos, talvez o primeiro e infinitamente duradouro, que o choque da tomada de conhecimento da tragédia tem nas pessoas… Talvez o leitor recue também comigo ao passado se lhe disser que foi nessa hora, nesse dia, nesse ano que a ponte Entre-os-Rios, a ponte Hintze Ribeiro, caiu, arrastando para a morte 59 pessoas. É uma memória que me tem assaltado nestes últimos largos dias…

Pensava, desejava que nunca mais houvesse tragédia semelhante em Portugal. Mas, mais uma vez, fomos atordoados por um drama cuja extensão, na sua imensidão, se foi desenrolando perante uma perplexidade crescente. 64 pessoas, todas como nós, a irem para lá, a chegarem dacolá, a passarem por ali, sozinhas, com familiares, com amigos, numa suposta tranquila tarde de sábado. Podia ter sido qualquer um de nós ou dos nossos, por acaso por ali, àquela hora, nem um minuto mais cedo, em que ainda teria passado incólume, nem um minuto mais tarde, em que já não teria avançado o suficiente para nunca mais regressar…   

Nós, que ficámos a assistir ao que se ia passando, com uma incredulidade e horror crescentes, proporcionais à frustração da impotência, e da qual ainda certamente não recuperámos, começámos depois, nos dias seguintes, a ser atordoados por controvérsias políticas e corporativistas: todos empenhados em apontar o dedo uns aos outros, num fogo cruzado como se de um duelo múltiplo se tratasse. E o silêncio ensurdecedor da omissão daquela palavra de suprema humidade: “desculpem”.

Indiferente às polémicas, mais uma vez, cada um de nós deu a resposta que podia aderindo a uma ou mais iniciativas das muitas que se têm vindo a organizar para recolher o máximo de recursos para suprimir às necessidades mais imediatas, para substituir o que com lágrimas de sangue é substituível. A solidariedade tem sido contagiante e apesar de não dissipar o sentimento de impotência conforta quem dá e quem recebe na unidade que estabelece entre todos. Afinal, tudo o resto é secundário, mesmo quando é importante, como acontece com o apurar o rigor dos factos e a verdade dos factores que intervieram nesta desgraça, sobretudo para prevenir a ocorrência de outras.  

Responsáveis…? Não os há directamente, se se comprovar que as causas da ignição foram naturais e não humanas. Também em Entre-os-Rios não houve uma acção directa de quem quer que fosse para que a ponte caísse, o que podia ter sido evitado se os pilares da ponte tivessem sido reforçados em devido tempo.

Mas a responsabilidade tem um largo espectro como facilmente cada um reconhece no seu quotidiano: somos responsáveis não apenas pelo que fazemos, mas também pelo que não fazemos mas podíamos e devíamos ter feito. Quanto mais poder se possuí maiores os deveres a exercer, maiores as responsabilidades a assumir. É certamente por esta simples experiência, comum a todos nós, que alguns líderes por vezes pedem desculpa, mesmo quando nada fizeram, por vezes precisamente porque nada fizeram. É também neste contexto que surge uma categoria especial de responsabilidade, a política. Rejeito-a totalmente se/quando corresponde meramente à necessidade obsessiva de encontrar culpados ou ditos “bodes expiatórios” para aliviar políticos e para tranquilizar cidadãos; mas advogo que a responsabilidade de cada um é proporcional ao seu poder e que a omissão de acção ou mera negligência incumbem responsabilidades também.

E a memória de Entre-os-Rios teima em emergir… Então o Ministro do Equipamento Social Jorge Coelho demitiu-se e com ele quatro Secretários de Estado, Luís Parreirão, das Obras Públicas, Leonor Coutinho, da Habitação, Guilhermino Rodrigues, dos Transportes e José Junqueiro, da Administração Portuária.

 

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