Sessões Plenárias — Opinião de Inês Sá

Assumo-me desde já como uma espectadora assídua das sessões plenárias da ALRA – Assembleia Legislativa Regional dos Açores. Assumo que a minha curiosidade política é algo que me corre nas veias, que mais não seja pela minha incessável curiosidade sobre os temas da atualidade, sobre os problemas da nossa sociedade, sobre as diferentes formas de que muitas vezes partidos opostos se socorrem, em busca de um mesmo fim; sobre os princípios de que se norteiam as diferentes ideologias, sobre o comportamento daqueles que nos representam quando conquistam o seu lugar na NOSSA Casa da Autonomia.

Certo é que, se um dia julguei ser este meu ritual, que já conta com mais de uma década de existência, de alguma forma enriquecedor e esclarecedor, do qual tirei por diversas vezes tanto prazer, quanto aquele que tenho em ler assiduamente as notícias do dia, terminado o período legislativo de abril, dei por mim a pensar que estava mais do que na altura de eliminar das minhas rotinas, este meu, estranho para uns, duvidoso talvez para outros, ritual. Ao mesmo tempo que esta decisão sobrevive no meu pensamento, questiono-me se de facto valerá a pena deixar de alimentar este prazer, unicamente pelo incómodo que me causa o confronto, cada vez mais frequente, entre aquilo que são os meus valores e princípios e aquilo a que lamentavelmente assisto. E é neste preciso instante, que eu me questiono: mas será que todos os nossos atores políticos – permito-me a esta generalização, consciente de que será injusta para alguns, porém na esperança de que pelo menos os aludidos aqui se identifiquem – têm de facto a noção, de que existem deste lado espectadores com interesse no espetáculo? Será que por algum momento se lembram que nós, os espectadores, uns com mais outros com menos interesse no assunto, dispomos todos os meses dos nossos impostos, o suficiente para que daquele palco surjam propostas concretas, ideias exequíveis, soluções inovadoras, intenções verdadeiras? Porventura haverá alguém convencido de que os “à partes”, os insultos, a crítica gratuita, a injúria, interessam ou adensam a curiosidade de quem está deste lado? Será que julgam existir deste lado, alguém com qualquer tipo de apetência mais mórbida, que se deleite com as constantes cenas de desrespeito, tantas vezes indecoroso, por quem conduz os trabalhos naquela Casa? Quero acreditar que não, mas deve ser apenas consequência do meu estado de negação.

Ao cenário já de si fragilizado, teimam ainda em acrescentar inúmeros e inconsequentes pedidos de demissão, o conveniente uso e abuso da lei, como se esta não fosse também ela construída com base no bom senso. Existe por acaso alguma lei que me diga que devo abrandar a marcha da minha condução quando encontro buracos na estrada? Se existe, eu desconheço, mas o bom senso obriga-me a fazê-lo, (até porque me habituei a zelar por tudo aquilo que conquisto!). Onde para o bom senso na política regional, quando se exige que o Governo Regional responda a um requerimento com 11 questões e um sem número de informação, dentro de um prazo claramente insuficiente? Como é possível que se despenda mais de uma hora em torno de um (não) assunto como este? Quando bastava, tão só e apenas, o uso e abuso de um pouco de bom senso…

E é neste cenário mais ou menos excêntrico, dependendo do ponto de vista, que surge a ideia surrealista (e estou a ser simpática na adjetivação), da criação de um Canal Parlamento no arquipélago, que possa transmitir em direto e “sem filtros” os trabalhos parlamentares na região. Isto é mesmo uma proposta séria? Quero acreditar que não, porque se há quem não tenha, eu tenho vergonha meus senhores!

O nosso parlamento é o primeiro órgão da autonomia e desrespeitá-lo é desrespeitar o povo, aqueles que, tal como eu, votaram para que nesta Casa estivessem representados, com desmedida elevação, os Açores!

 

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