(Re)encontro — Opinião de Inês Sá

O dia já ia avançado quando me apercebi que, apenas por acaso, me acabara de ser dada a possibilidade de nas próximas 24 horas, usufruir apenas de mim. Não me recordo da última vez que tal me acontecera, mas foi com certeza, há já alguns anos.

Deixei a água escorrer pelo meu corpo sem qualquer interrupção… normalmente vejo-me obrigada a silenciar o chuveiro, repetidamente, para garantir que os miúdos não estão a fazer nenhuma birra, nem nenhuma asneira, nestes breves instantes da minha ausência. Quando terminei, havia apenas o barulho do silêncio. E tão bem me estava a saber este silêncio… A certeza de que ninguém me esperava, que ninguém aguardava a comida na mesa, que ninguém precisava que escolhesse a roupa, que não havia “totós” para fazer no cabelo da mais nova, nem gel por espalhar no corte da moda do mais velho, despertava em mim uma tranquilidade inquietante. Atirei-me para cima da cama e peguei no livro em destaque. Já há dias que este me esperava na mesinha de cabeceira. Retirei o marcador e voltei ao início, o que normalmente faço quando a rotina me obriga a espaçar demasiado o regresso à história. Fui trucidando página atrás de página, quase na mesma proporção da velocidade em que os miúdos devoram um saco de gomas. Sem dar por isso, lá estava eu em mais um cenário desconhecido, construindo cada personagem à minha maneira, numa conjugação deliciosa entre a minha análise e aquela que o autor tenta impor. A noite havia chegado sem eu dar por isso e a hora de jantar já ia longe. Nada nem ninguém dependia de mim. Acordei algumas vezes durante a noite, incomodada com a ausência do respirar alheio, mas rapidamente retomava um sono profundo e despreocupado. Levantei-me e dirigi-me à cozinha. Não tinha o pequeno-almoço das crianças por fazer, a televisão desligada denunciava a ausência da mais nova, o sofá vazio contrastava com a habitual presença do meu pré adolescente, horas a fio agarrado ao telemóvel com os auscultadores bem encaixados nos ouvidos. Tomei o meu habitual café e sentei-me no sofá. Estranho. Muito raramente, na agitação dos meus dias, consigo despender tempo para me sentar no sofá. Talvez por isso, ao contrário dos demais, ainda não me tenha sido atribuído lugar, entre as diversas almofadas. Cruzei as pernas e deixei-me levar pelo silêncio. Magnífica e singular sensação. Desde que me conheço que gosto de estar sozinha, gosto de estar comigo, de ter tempo para organizar a mente, de ter tempo para priorizar pendentes, de pura e simplesmente me obrigar a alguma introspeção. Fácil? Não, nada. É um dos prazeres de que abdicamos, muitas vezes sem darmos por isso. Inacreditavelmente, a nossa sociedade permanece implacável quando se trata de julgar quem ainda tem a coragem de se dar a estes pequenos luxos. A pressão chega-nos de todos os lados e faz-nos sentir uma culpa tremenda, pelo simples facto de usufruirmos de momentos só nossos, quase como se não fossemos merecedores de tamanha dádiva. Se casados e com filhos, a coisa então tende a piorar, como se deixasse de ser legítimo, apresentarmo-nos à sociedade, nem que apenas por um instante, sozinhos.

Da minha parte, a certeza é a de que continuarei a devorar cada momento da minha solidão, cada instante de silêncio, nas raríssimas vezes em que a rotina diária se deixa anular. Até porque não tenho qualquer dúvida, que de cada vez que me permito parar, a maturação implícita desta ocasião, traduz-se invariavelmente numa auto analise tão profunda, capaz de influenciar todo o caminho que ainda falta trilhar.

 

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