Porto seguro — Opinião de Inês Sá

InesJá lá vão uns bons anos desde que me vi conquistada por este ritual de férias. É quase tão certo quanto o relógio de ponto que nos persegue todo o resto do ano, ainda assim com a vantagem de que deste nunca me esqueço. O mais velho já não espera por ninguém, a partida rumo à ilha do Pico já faz parte do seu calendário escolar, alterando a definição de “interrupção letiva” por interrupção de rotinas, de horários, de treinos, de trabalhos de casa, de regras para tudo e para nada. A mais nova vem com o coração mais apertadinho, deixa em S. Miguel alguém muito especial mas, felizmente, nem tem tido tempo para pensar, ou expressar a saudade que, de certeza absoluta, sente todos os dias. Em poucos dias parece já ter conquistado o mundo: rejeita as braçadeiras (até porque isso é coisa de bebés), descobre a liberdade de andar na sua nova bicicleta sem rodinhas, toma duche sozinha (por sua iniciativa), besunta-se de creme (para evitar o aparecimento de rugas), escolhe a sua roupa (combinando cuidadosamente os tons), pinta os lábios (da cor mais berrante que encontrar na mala da mãe) e já não dispensa o “cafezinho” da noite.

O dia amanhece tarde (só para queles que ainda não estão de férias), até porque a noite estende-se sempre mais do que o prometido. Há sempre mais alguém que aparece para brincar, enquanto os adultos aproveitam para se reencontrarem, partilharem novidades, desabafarem as últimas conquistas e anunciarem os projetos futuros. Já passou um ano desde a última vez que neste mesmo local se haviam encontrado. Com a noite chegam as cagarras que não se cansam de cantar, parece mesmo que vêm com o único propósito de desafiar o silêncio que, destemidamente, insiste em se fazer ouvir. O céu não parece o mesmo, a ausência de poluição luminosa, a que inevitavelmente nos habituamos, honra o cintilar da mais vulgar estrela, incorporando-a num cenário de absoluta magia.

Nas primeiras noites ainda estranham o meu silêncio, a ausência da minha voz, que repetida e diariamente, ao longo de quase um ano, os alerta para a hora da cama. Contenho-me e permaneço muda, ao mesmo tempo que me batalho contra a inquietude de, tão repentinamente, ver os meus filhos crescerem. Adormecem vencidos pelo cansaço do dia, dos banhos no porto, das corridas desenfreadas de quem acaba de descobrir o sabor de alguma liberdade, aconchegados pela luxúria de tantos “extras” a que nunca foram habituados.

Aproxima-se a hora do almoço e nada os sacia tanto como um belo mergulho no porto da freguesia. O cheiro a peixe fresco mistura-se com perfume do bronzeador, a água salgada dá ao pastelinho de massa tenra da “Ti ‘Ângela” um toque especial, as toalhas estendidas na pedra deixam escapar a identidade de quem anda pelas redondezas. Assusto-me. Ainda agora estava aqui agarrada a mim! Calma. Estamos no Pico, rodeados de família, de amigos, de conhecidos, de gente que mesmo sem saber te proporciona uma despreocupação singular, um relaxamento invulgar, uma descontração quase irresponsável, principalmente para quem tem crianças e está mesmo ali junto do mar. Durante a semana os jantares ou petiscadas (como dizem os Picarotos) sucedem-se. Hoje aqui, amanhã ali, é raro o dia em que o programa é livre, seja dia de semana ou de fim-de-semana, o Triângulo é pródigo em festas e festinhas que, particularmente nesta época do ano, vão surgindo pelas diferentes freguesias. Muitos não fazem ideia do cartaz, vão pura e simplesmente porque faz parte, porque sempre foram, sabem que lá vão encontrar os seus e acima de tudo querem aproveitar a oportunidade de conviver, um bocadinho mais, com aqueles que em breve regressarão às suas vidas, mas desta feita, às suas vidas reais.

As despedidas infernizam-me. A velocidade do mês de agosto chega a ser estonteante, as toalhas estendidas em cima do porto já não lhe conferem igual estatuto, brevemente, à medida que setembro se aproxima, este ponto de encontro de nativos da terra, voltará a ser, exclusivamente, um porto de pesca.

 

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