O circo — Opinião de Maria do Céu Patrão Neves

Portugal tem estado a arder. Pessoas como nós morreram de forma atroz e vã…; outras perderam os seus pais e filhos, cônjuges e irmãos, familiares de sangue e do coração. O lar de muitos, os seus campos agrícolas e pequenas indústrias, os seus empregos, o seu sustento, perderam-se igualmente num cenário negro desolador, de um vazio de vida e cheio de um silêncio opressivo. Eram pessoas já quase abandonadas nas suas regiões-berço, esquecidas no interior do país, e que agora ficaram mais sós e mais desprotegidas, desenraizadas das suas famílias, casas e campos… “Recomeçar” – diz-se –, mas é difícil para quem já se arrasta curvado, com um olhar baixo que perdeu o horizonte do futuro e está cravado na certeza próxima da terra. Ao lado…o circo…

O circo, a sua excitação característica, em actividade constante, ininterrupta, em cenários paralelos que se desenvolvem independentemente, sempre acompanhados de imagens e sons surpreendentes para atrair a atenção, para causar o máximo entusiasmo.

Os artistas estão bem caracterizados. Aponto primeiramente os artistas secundários, alguma comunicação social que se esqueceu da sua razão de ser, da sua missão de informar, e da sua justificação para o fazer livremente, da sua responsabilidade social. Antes monta a tenda diária onde os incêndios lavram, repetindo as mesmas notícias horas a fio, passando as mesmas imagens ao longo do dia, fixando-se nas pessoas que fogem ou deambulam sem sentido, aterrorizadas ou já em estado de choque, que gritam, que choram… De quando em vez há esporádicas actualizações da informação, invariavelmente animadas por entrevistas às vítimas, às maiores vítimas, aos que mais perderam, aos que mais sofrem, aos que estão na pior situação social… Convertem a dor em espectáculo e vendem-na por audiências.

Mas temos também os artistas principais, aqueles que actuam de improviso, ao sabor do interesse da comunicação social: conforme esta pega num tema ou se fixa numa palavra, é esse tema que se torna mote de múltiplas variações é essa palavra que se torna alvo de infinitas interpretações…Os mais destacados protagonistas do deplorável espectáculo que nos tem invadido são alguns políticos que instrumentalizaram a desgraça dos outros para proveito próprio, para promover a sua imagem, para combater o adversário, para fazer campanha política, particularmente aguçados pela proximidade das eleições autárquicas.

O governo esqueceu-se da sua função de zelar pelo bem-estar das populações e pelo desenvolvimento das comunidades, assumindo todas as responsabilidades pelo incumprimento destes desideratos. Há causas que obviamente fogem ao seu controlo: os países do Sul terão sempre incêndios. Mas uma forma de assumir as responsabilidades é pedir desculpa pelo que não se fez e focar-se no que precisa de ser feito, é preocupar-se com a acção transformadora da realidade destruída e não com a gestão da imagem e da mensagem política que poderá passar do que se poderá vir a fazer. Isto é, selecionando as palavras e as acções em função do impacto político que estas possam causar em vez de as desenvolver em função das necessidades que existem.

A oposição esqueceu-se da sua função de zelar pelo cumprimento das funções do Estado, de fiscalizar o governo, sem dúvida que apontando as deficiências – e são muitas -, mas não confundindo o prioritário com o que pode ser retomado mais tarde, e até com vantagem. As causas humanas têm de ser apuradas assim como as responsabilidades directas e também as negligências que agravaram a situação, mas no tempo certo. A gestão política da informação e a manipulação de dados têm de ser denunciados, mas não recorrendo aos mesmos meios e até exacerbando-os. É um aproveitamento indigno da população afectada e de todos nós que com ela sofremos, violentados na sua redução a arma de arremesso político, para além da indesculpável distracção do essencial e urgente: a promoção da eficácia no combate aos incêndios e o auxílio efectivo a todas as pessoas diferentemente afectadas.

Hoje, neste Portugal que continua a arder, só me interessa que os políticos, governantes e oposição, se concentrem no que pode ser feito para prevenir os incêndios, controlar a sua progressão e mitigar os seus impactos nefastos, sem o espectáculo infantil de se atacarem mutuamente; só queria ver a comunicação social a informar com rigor e objectividade e  a mobilizar o país no apoio aos que muito ou tudo perderem (como já fez exemplarmente), sem explorar sentimentos e emoções e sem pactuar com os malabarismos políticos.

É nos momentos difíceis que se descobrem os fracos e que os melhores se destacam.

 

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