Não vou por aí… — Opinião de Maria do Céu Patrão Neves

O Brexit, que a maioria de nós não acreditava pudesse vingar, está aí. Depois de largos meses de contestações, hesitações e confusões (inclusivamente parlamentares), eis que a saída do Reino Unido da União Europeia foi finalmente formalizada por quem pugnou contra o Brexit e agora provocou eleições na expectativa de reforçar o seu poder para concretizar o Brexit (não, não me enganei: é assim mesmo!). Sabe-se que os custos serão muito avultados para o Reino Unido e que também a União Europeia será prejudicada. É daquelas opções em que ambos perdem e ninguém ganha. Mas o povo assim o quis.

Trump, que a maioria de nós não acreditava pudesse chegar a presidente, está aí. Não tem noções de geografia, desconhece a história dos povos, a sua cultura e religião, não compreende qualquer teoria científica e confunde-as com convicções infundadas, tal como se atrapalha a distinguir factos e opiniões, verdades e mentiras, com um discurso de criança mimada de 3 anos de idade, comporta-se com as demais pessoas desrespeitando-as, maltratando, discriminando, insultando, ofendendo. Esta semana celebra uma vitória do seu novo plano de saúde que deixa entregues à sua sorte mais 24 milhões de pessoas e que admite a rejeição, por parte das seguradoras, de mulheres violadas a pretexto de terem doenças pré-existentes. E assim prossegue, governando os Estados Unidos e jogando com a geopolítica mundial. Mas o povo assim o quis.

Em breve saberemos o que o povo vai querer em França. E se todas as sondagens apontam para a vitória da razão sobre o medo e o ódio, da objectividade sobre a demagogia e o populismo, importa ter em atenção que, no dia seguinte, os milhões de pessoas que votaram em Marine Le Pen não desaparecem, nem quem votou em Trump ou no Brexit.

Sim, tenho de reconhecer que a vitória do Brexit, decidida pelos sectores mais velhos, menos instruídos, rurais do Reino Unido e os que menos sofrerão as repercussões do voto, me fez pensar sobre o exercício da democracia. É verdade também que a vitória de Trump, decidida pelas populações maioritariamente do interior, rural, que ainda pensam que a Terra é plana e que o Homem nunca chegou à Lua, me fez sentir a intranquilidade decorrente da abissal desproporção entre o poder e a ignorância e viver a certeza de que a maioria não tem necessariamente razão. Mas é um preço que se tem vindo a pagar na ausência de um melhor regime político.

Nesta minha atitude acompanhei muitos outros críticos da situação a que o exercício pleno da democracia nos conduziu, inclinando-me sempre para a responsabilidade que os mais instruídos têm de promover a difusão de conhecimentos e sobretudo o desenvolvimento de um sentido analítico e crítico de todos os cidadãos sobre todas as matérias.

Não imaginei que algum crítico da situação me pudesse verdadeiramente surpreender, efectivamente atemorizar e veementemente fazer rejeitar a sua posição. Eis o que aconteceu quando, a uma análise da situação de sentido análogo à minha, se concluiu que os jovens, mais dinâmicos, mais cosmopolitas, mais abertos ao mundo e com uma maior expectativa de vida, estão a ser “derrotados”, “engolidos” por quem “poucos anos de vida terão”. Perspectivar a dicotomia entre mais ou menos esclarecidos numa dicotomia entre os que têm mais ou menos tempo de vida, poderá conduzir-nos de um discurso que, apesar de elitista, assume a responsabilidade de promover o pensamento critico junto de todos, para uma militante discriminação dos mais velhos, cujo voto hoje – parece – não devia valer tanto como o dos jovens, sendo que amanhã… Há muito venho afirmando que a mais poderosa e humilhante discriminação do século XXI é a dos idosos, mas ainda me surpreendi por esta interpretação da vitória do Brexit como da do Trump… Não vou por aí!

 

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