(Des)igualdade de oportunidades — Opinião de Inês Sá

Não é a primeira vez que abordo este assunto. Já o fiz em diferentes contextos e uma vez mais ouso fazê-lo, isenta de qualquer tipo de filtros ou até de qualquer ideia pré-concebida.

Hoje, mais do que nunca, a escola apresenta-se como uma instituição aberta à sociedade, numa luta pela solidificação da relação escola-família, sem precedentes. Esta abertura da escola surge não só numa época em que se pretende chamar à responsabilidade todos os intervenientes, como também como uma das ferramentas fundamentais na luta contra o abandono e o insucesso escolar.

Se é certo que a partilha de responsabilidades urge ser feita, até porque a escola e o sistema não encerram em si os motivos que levam ao abandono e/ou ao insucesso, na minha humilde opinião, é cada vez mais dúbia a linha que separa aquilo que cabe efetivamente à escola e aquilo que cabe exclusivamente ao aluno e, por inerência, ao seu encarregado de educação.

Por um lado, o desafio prende-se com a sensibilização das famílias para a importância da escola na vida dos seus educandos. Hoje já ninguém tem duvidas quanto à relação direta existente entre as expectativas que são depositadas no aluno, tanto pelos docentes como pelos encarregados de educação, e o sucesso/ insucesso do seu processo de aprendizagem. Assim, é fundamental que se intervenha no agregado familiar, por forma a consciencializa-lo desta dinâmica, garantindo ainda que todos os alunos têm em casa, reunidas as condições não só sociais, como também económicas, para trilhar o seu longo processo educativo. Naturalmente que esta difícil missão só terá frutos, se levada a cabo em estreita articulação entre os diferentes departamentos governamentais, nomeadamente, Solidariedade Social, Educação, eventualmente Saúde, entre outros, dependendo das especificidades de cada caso.

Mas, paralelamente, existe o outro lado. Um sistema educativo que assume de forma desavergonhada uma homogeneidade de alunos e contextos familiares que, como demonstra a abordagem anterior, não existe! E se assumimos que não existe, pelas demais evidências, não é coerente que se organizem currículos que de tão ambiciosos, dificilmente serão cumpridos, sem o auxilio ao aluno em contexto familiar. Esta nova realidade, que começou por se introduzir no sistema educativo atual de forma subtil, muito em parte pela dificuldade explicita dos docentes em cumprirem com o programa estipulado, faz hoje parte até dos manuais escolares. Quando o próprio manual de um aluno do 1º ano, onde consta a indicação de um “trabalho de casa”, inicia um exercício da seguinte forma: “Com a ajuda de um familiar, realiza a seguinte tarefa”, eu de imediato, dou por mim a pensar, como é possível alguém partir do principio que todos os alunos têm em casa alguém disponível ou com instrução suficiente para os ajudar(?). Não estaremos desta forma, conscientemente ou não, a confrontar os alunos com uma realidade, muitas vezes escondida, fragilizando desde logo a igualdade de oportunidades constitucionalmente consagrada? Será esta a abordagem a melhor forma de combater o insucesso/ abandono escolar? Não será este pequeno exemplo, entre outros possíveis, um passaporte para a exclusão? Para o desinteresse? Para a frustração? Tenho dúvidas.

Se o que todos nós ambicionamos é ter uma escola para todos, onde todos cabem independentemente do seu estatuto, económico, social, raça ou religião, onde o sucesso de cada um é parte do sucesso de todos, julgo que deveríamos começar por anular por completo esta tendência de uniformização que, por motivos vários, nos é inata.

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