Acordos de regime — Opinião de Maria do Céu Patrão Neves

Todos nós sabemos que, se estamos aqui e queremos ir para ali, traçamos um caminho para lá chegar. O “aqui” e o “ali” podem ser espaços geográficos e o “caminho” pode ser uma calçada, se formos a pé, ou uma estrada, se formos de carro. O “aqui” e o “ali” também podem ser situações de vida, projectos, objectivos…, individuais ou colectivos, desportivos, intelectuais…, políticos… Em todos estes diferentes planos de acção teremos dificuldades em chegar à nossa meta se, a meio do caminho, mudarmos de direcção. Pior ainda será se, a meio do caminho, mudarmos de objectivos. É lamentavelmente o que tem acontecido na vida política portuguesa em matérias vitais para os cidadãos como são a educação, a saúde, a segurança social, a justiça… Mudam os governos, mudam as políticas; mudam os ministros mudam as políticas. Perdemo-nos no ensaio de vários caminhos e mantemo-nos afastados dos objectivos.

Dir-me-ão que, por vezes, será bom mudar de sentido, mudar de metas e de percursos, porque o caminho anterior parecia errado e podemos estar a mudar para melhor. Assim, valerá a pena. Não o nego, mas também concordarão comigo em que o melhor mesmo seria conseguir fixar metas e delinear percursos que resistissem ao curto prazo da governação eleitoralista e se projectasse para o médio prazo em que o bem público se constrói.

A nossa vida política já teve várias oportunidades para o fazer e tem agora mais uma na medida em que a celebração de pactos de regime faz parte do projecto político do novo líder do PSD e já foi proposto à classe política portuguesa. Mas para construir políticas duradouras importa construir consensos amplos.

Da esquerda comunista e bloquista já veio a resposta, cada uma ao seu estilo, mas ambas negativas, denunciando o receio de perderem poder da sua geringonça, e colocando-se à margem de qualquer diálogo (como se os eleitores do PSD e do CDS não fossem portugueses de igual valor que os seus próprios eleitores).

Com o Partido Socialista é mais complicado: dizem que sim e fazem que não. Lembrem-se do tempo em que o líder do PS tinha perdido as eleições mas queria ser Primeiro-Ministro e em que ia às reuniões com o PSD, supostamente para articular soluções governativas, mas sem nunca aceitar qualquer proposta ou fazer qualquer sugestão, dizendo que estava empenhado no diálogo mas fazendo para que nenhuma solução fosse encontrada. Pouco depois, já no governo, e desde então até hoje, tem um discurso bipolar, ora referindo-se às vantagens dos acordos e culpando Passos Coelho por estes não existirem, ora afirmando que não precisa do PSD porque já tem companhia que lhe chegue…

Vamos agora ver se quer acordos de regime e se o que diz e o que faz coincidem finalmente, agora que perdeu a desculpa….

 

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