À tua, mãe — Opinião de Inês Sá

Nasceu em Lisboa e completa este mês 65 primaveras.

Filha do comunismo, viveu o 25 de abril no auge da sua irreverência. A vida poucas vezes lhe deu motivos para sorrir, convencendo-nos conscientemente do contrário, pela forma apaixonada como desde sempre viveu. Invejo-lhe a sua capacidade de resiliência, a sua forma de amar tão genuína, a prontidão com que se anula em prol de alguma causa ou de alguém. Não tenho na memória um único momento em que se tenha dado por vencida, mesmo que isso lhe tenha saído, algumas vezes, bem caro. Dificilmente desiste, opta quase sempre por argumentar até à exaustão. A perspicácia corre-lhe nas veias, o que muitas vezes colide com a minha ingenuidade. Certo é que, no que diz respeito à avaliação que faz das pessoas, nomeadamente no que diz respeito à integridade destas, foram mais as vezes em que me vi obrigada a dar-lhe razão, do que ela a mim.  Cuidado! – repete-me esta advertência vezes sem conta. Eu finjo acatar, mas quase sempre sem abrandar a marcha. Sempre fui assim, nunca deixei de dar uma oportunidade a quem quer que seja com base no que alguém diz, mesmo sabendo que às vezes a coisa pode correr mal. Mas quando corre, é tão só e apenas, um problema meu.

Paralelamente à docência, que sempre lhe deu imenso prazer, desde sempre me lembro dela fazer parte de associações cívicas, de promover a cidadania fosse onde fosse, até mesmo à hora do lanche que competentemente fazia para mim, para a minha irmã, para os meus irmãos e, como não podia deixar de ser, para a restante vizinhança. Sempre se destacou por ser uma mãe de espirito jovem, com quem todos contavam e a quem todos se socorriam. Os alunos eram parte dos seus amigos. Sabia a vida deles como ninguém. Os vizinhos procuravam-na para desabafar os dilemas da adolescência, o que naquela época, me deixava a fervilhar de curiosidade.

As lutas em que se empenhava passaram-me, durante alguns anos, maioritariamente ao lado. Sempre fui mais tímida e menos predisposta para determinados confrontos. Até que, em pleno verão de 1999, já em solo Açoriano, regresso a casa ao final do dia e deparo-me com uma mulher, agarrada à televisão, em total desespero. As lágrimas escorriam-lhe pela cara ao som de gemidos de dor e sofrimento. Na televisão, as imagens registavam os confrontos em Timor Leste, completando assim o cenário dramático em que eu, involuntariamente, acabava de entrar. Tentei acalma-la, mas nada que eu fizesse naquele momento a podia consolar. Implorava para que fizéssemos alguma coisa, ao mesmo tempo que pegava na mala e se dirigia à porta da rua. Conduziu em direção ao centro de Ponta Delgada e em plena marginal, nas escadas do consulado americano, um grupo de cidadãos, onde eu me vi, repentinamente incluída, dava inicio a 24h de greve de fome. Na verdade, eu estava longe de perceber todo aquele sofrimento, mas rapidamente percebi que era a única forma de lhe aliviar a dor.  Hoje, não tenho duvidas da importância deste momento, não só por aquilo que estava em causa, mas fundamentalmente por me ter obrigado a refletir, a observar, a valorizar e a lutar pelo mundo, para lá da minha confortável e pequenina “caixa”. Obrigada, mãe.

Diz-se que as homenagens se fazem em vida e que esta passa num ápice, por isso hoje não podia deixar de te dizer que és, e sempre serás, a mulher da minha vida e que tenho imenso orgulho em ser tua filha. Se podia viver sem ti? Definitivamente não podia. Mas se um dia for obrigada a isso, não tenho qualquer duvida, de que jamais será a mesma coisa.

 

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