A consciência de ter os dias contados

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Inspirada pelo termo da Quaresma e início da semana Santa queria hoje referir-me a uma
noção que, permanentemente significante aos longo dos 365 dias do ano, ganha uma maior
intensidade para os cristãos, nesta semana: a de que temos os dias contados. Esta é uma
realidade universal para crentes e não-crentes: somos finitos, somos mortais.
Viver com a consciência de ter os dias contados não nos aproxima artificialmente do fim, nem
nos angustia ou deprime necessariamente. Pelo contrário. Viver com a consciência de ter os
dias contados oferece-nos uma nova perspectiva, um mais amplo contexto para o nosso
quotidiano, o que se traduz numa urgência em estabelecer prioridades nas nossas vidas. O que
queremos fazer com a nossa vida? A que é que vale a pena dedicar-nos? Qual o sentido que
lhe queremos imprimir? Nunca, nenhum de nós poderá fazer tudo o que lhe é possível. É
preciso escolher a cada momento. Escolher para onde vamos e o que rejeitamos. E cada vez
que fazemos uma escolha, que enveredamos por um determinado caminho, o nosso leque de
opções estreita-se. Por isso as crianças poderão ainda optar por uma quase infinitude de
projecto, poderão tonar-se numa diversidade enorme de pessoas; os adultos vêem as suas
possibilidades de escolha diminuir a cada escolha que fazem. Por isso, têm de ser tão
criteriosas.
Viver com a consciência de ter os dias contados contribui assim para uma vivência mais plena
da nossa vida, não permitindo que, por desleixo ou conforto, factores extrínsecos, sobre os
quais não temos qualquer controle, dominem as nossas vidas. E acontece tantas vezes,
demasiadas vezes. Quando no desejo obsessivo por agradar, por ser popular, por ser admirada
ajo de acordo com o que os outros querem, o que os outros apreciam ou valorizam, assumindo
um espírito de rebanho; acontece quando, zangada, irritada, permito que sejam os outros a
ditar os meus dias ocupados com planos de desforra. Que desperdício de um bem tão escasso
e não renovável como é a nossa vida. Há tanto que podemos fazer de mote próprio,
desenvolvendo um projeto de vida e tão pouco tempo para o fazer…
Na semana Santa dos crentes, nos dias de férias dos não-crentes, os mesmos dias passam para
todos, igual; a diferença pertence-nos e está no modo como cada um vive os seus dias.

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