A Cigarra e a Formiga

Opinião de Sofia Ribeiro

sofia-ribeiroNa política, há as cigarras e as formigas, tal como as da fábula infantil. Lembra-se o leitor da história da formiguinha que trabalhou durante todo o Verão para aprovisionar para o Inverno, e da cigarra que passou o tempo todo apenas em cantorias e que teve de recorrer a ajuda quando chegou a neve e o frio? É precisamente desse tipo de cigarras e de formigas a que me refiro.

Anda por aí muita cigarra verdadeiramente hábil na arte do canto. Prendem a atenção do indivíduo e o seu grau de afinação é tão requintado que ousam inebriar alguns ouvintes, que chegam, por vezes, a venerar as cigarras, habituados que estão a tomar os artistas mais visíveis como verdadeiros ídolos. Casos há, também, em que as cigarras são apenas bajuladas, iludidas. E seguem, auto-centradas na sua cantoria. Quanto mais alto cantarem, melhor. O amanhã, há-de se ver. O Inverno certamente não será muito rigoroso! E, na realidade, a cigarra até não se tem dado mal no mundo das cantigas.

Também há as formigas. Mais raras, porque não tão exuberantes, e a sociedade actual presta pouca atenção ao que não é imediato, mesmo que com muito maior sedimentação. As formigas planeiam o futuro, dedicam-se a uma causa. Incansáveis, são persistentes.

Amealham daqui, amealham dali, são muito trabalhadoras e orientadas, sabem que a maior segurança é a que advém única e exclusivamente do seu trabalho, que é conduzido de forma estratégica para que se maximizem os resultados.

Tal como na fábula, também as cigarras da política desdenham das formigas. Não há problema se o Inverno (ou fim das quotas leiteiras) está a chegar. Estamos preparados. Estarão as formigas a colocar em causa os dotes das cigarras?

Tal como na fábula, também as formigas alertam as cigarras para a necessidade de nos prepararmos para os tempos difíceis. Temos de garantir a nossa sustentação. Temos de fortalecer a nossa posição, amealhando provisões (a aposta na qualidade dos lacticínios, a promoção do produto e das mais-valias do seu consumo, a regulação da cadeia de abastecimento agro-alimentar, o fortalecimento das relações entre os membros das fileira, o combate ao excesso de oferta).

Tal como na fábula, seria muito mais confortável fiarmo-nos no aqui e no agora, mas o Inverno (crise no sector leiteiro) chegou com todo o seu rigor. As cigarras, atónitas e demasiado orgulhosas para reconhecerem o seu erro, tentam proteger-se do frio, crentes de que, se continuarem a cantar, ainda que de quando em vez, conseguirão sobreviver. Até que se apercebem que têm de utilizar os recursos das formigas. Então passam a assinar protocolos com o sector, a anunciar que vão desenvolver planos de promoção, a dizer que é preciso regular a oferta, a propalar que tem de haver maior controlo da distribuição e que se vai apostar ainda mais na qualidade do produto. No fundo, tudo ao que a formiga já se havia dedicado.

Tal como na fábula, a cigarra, ainda que recorrendo à formiga, não reconhece o quanto ela foi imprescindível. Usufrui também do trabalho da formiguinha, mas persiste nas cantorias. Afinal, tem de continuar a ser o centro das atenções para sobreviver.

Na vida real, em que os produtores de leite estão a enfrentar uma crise de sobrevivência, ainda não chegámos à Primavera. Mas assumo que prefiro ser a formiguinha trabalhadora, tudo fazendo, multiplicando contactos, para que o Inverno dos nossos lavradores passe depressa.

 

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