Vulnerabilidades — Opinião de Maria do Céu Patrão Neves

Hoje vou resistir a escrever mais uma vez sobre Trump, se bem que as suas afirmações e acções constituam um manancial inesgotável de temas atraentes para comentar quase diariamente… Só esta semana podíamos começar por destacar o empurrão de Trump ao Primeiro-ministro de Montenegro para passar à frente na foto de família dos líderes da NATO, ou o seu ininteligível tweet sobre um tal “covfefe” inexistente, passando pelo rompimento do acordo internacional sobre alterações climáticas, uma invenção dos chineses segundo afirma…(boicotemos os produtos norte-americanos produzidos de forma não sustentável!)  Tudo isto e tanto mais seria cómico, se não fosse trágico, sendo em qualquer circunstância sempre caricato.  

Prefiro deter-me em questões sociais que são realidade tanto lá longe, como à porta de casa, e em relação às quais podemos sempre fazer algo à medida dos nossos poderes. Neste âmbito, destaco alguns dados divulgados esta semana e que necessariamente nos chocam, reportando-se às crianças desaparecidas e à violência sobre os idosos. Os números são absolutamente esmagadores em ambos os casos e traçam uma imagem negra das sociedades solidárias e inclusivas que anunciamos.

Na União Europeia, uma criança é dada como desaparecida a cada dois minutos, o que corresponde a 250 mil crianças desaparecidas por ano. E, se bem que a maioria seja encontrada em dois dias, são demasiadas as que permanecem desaparecidas por muitas diversas razões: porque fugiram ou se perderam, porque foram raptadas pelos pais à restante família, porque foram raptadas por criminosos que as reduzem à condição de mercadoria, vendidas para pedófilos, prostituição ou tráfico de órgãos… Segundo a Unicef, 1,2 milhões de crianças serão anualmente vítimas de tráfico humano em todo o mundo. E se este problema assim quantificado clama a alta voz, tem-se vindo a agudizar ainda mais com a chegada de migrantes à Europa, alguns crianças ainda, muitas das quais desacompanhadas, sendo que cerca de 10.000 terão desaparecido. Onde estão as nossas crianças? Como estão a ser tratadas, como estão a ser usadas? Quanto sofrem, até quando? Como cuidamos da geração futura?

No que se refere à situação dos idosos, o Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto publicou um estudo, realizado em parceria com a Mid Sweden University, e envolvendo sete países (Alemanha, Grécia, Itália, Lituânia, Espanha, Suécia e Portugal), em que Portugal apresenta, em média, os piores indicadores com cerca de 16% dos idosos vítimas de maus tratos físicos e cerca de 45% dos idosos a relatarem pelo menos uma experiência de violência. A agressão mais frequente é a psicológica e depois a financeira, para além da física já apontada. Cerca de 40% das agressões são perpetradas pelos filhos. De que dores sofrem os nossos idosos? A quantos abandonos vão sobrevivendo? Como cuidamos da geração que nos deu a vida?

O lúgubre número de crianças desaparecidas tem estado a diminuir, sobretudo em Portugal; as trágicas taxas de violência sobre os idosos têm estado a aumentar.

Relembro o filósofo Emmanuel Lévinas na sua afirmação de que a vulnerabilidade atrai sempre, de alguma forma, a violência… É tão mais fácil fazermos abater o nosso poder sobre os mais fracos… As crianças e os idosos são os mais vulneráveis entre nós e, por isso, os mais expostos à violência. Mas este não é um comportamento só de alguns poucos. A diferentes níveis é um padrão de procedimento que se repete. Se estou num local público e alguém ao meu lado me incomoda, mais facilmente recriminarei se for uma criança pequena do que um jovem rebelde; mais facilmente desdenharei uma opinião de um idoso do que de um adulto arrogante… Não tratamos todos por igual; não tratamos cada um de acordo com o que a sua vulnerabilidade nos solicita.

A discriminação dos vulneráveis existe entre nós e abate-se hoje, sobretudo entre os mais velhos, podendo assumir formas de desprezo e negligência como de agressividade e violência. É esta cultura do abuso dos mais fracos que todos podemos contribuir para mudar, para que sucessivamente se vão eliminando todas as suas variantes.

 

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