Viva a Vida — Opinião de Maria do Céu Patrão Neves

Não é preciso ser-se religioso e acreditar que a vida é um dom de Deus para a reconhecer como valor supremo. Aliás, são vários os autores que consideram a vida como um proto-valor, ou seja, como anterior e condição indispensável e necessária para a concretização de todos os valores: só a vida nos permite realizar os demais valores. É desta sua condição que lhe advém o seu carácter inviolável o qual, por um caminho diferente, converge com a natureza sagrada que os crentes lhe atribuem. Por razões diferentes, filosóficas ou religiosas, para ateus ou crentes, a vida é reconhecida como fundamento de toda a expressão do humano exigindo protecção e merecendo respeito.

E, não obstante, a eutanásia, o acto de deliberadamente encurtar a vida e apressar a morte de alguém que sofre, entrou na ordem do dia. No fim da II Guerra Mundial, pensava-se que a eutanásia havia sido esconjurada como estratégia de eliminação dos considerados inúteis para a sociedade; mas na década de 80 regressou como rejeição de um encarniçamento terapêutico quando, na incapacidade de curar, se visa apenas prolongar a vida. Mas, afinal, já o Papa Pio XII, em 1957, distinguia entre meios terapêuticos ordinários, obrigatórios, e extraordinários, dispensáveis na ausência de perspectivas de recuperação.  

Há muito que se estabeleceu o consenso: curar quando possível, cuidar sempre. O cuidar implica eliminar a dor e aliviar o sofrimento, sem prolongar futilmente a vida, nem a suprimir gratuitamente.

Compreendo ser mais rápido, prático e até económico legalizar a eutanásia do que tornar as consultas de dor acessíveis a toda a população ou criar unidades de cuidados paliativos em todo o país. Quem sofre, sem ajuda, quer acabar com o sofrimento. Não nos resignemos a este raciocínio simplista. Quem sofre tem que ter ajuda que acabe com o sofrimento.

Entretanto, hoje, a coberto de um discurso politicamente correcto, invocando a dignidade humana e os direitos individuais como slogans para conquistar adesões irreflectidas, em vez de se investir nos cuidados de saúde (bem conhecemos o estado da saúde em Portugal), pretende-se oferecer uma alternativa que dispensa os cuidados de saúde…

Mas não é só dos abandonados no sofrimento que a eutanásia trata; trata também dos que vamos descartando como um peso…. Aquela viúva, idosa, debilitada e depauperada, que vive em casa dos filhos, ocupando o espaço da casa pequena, gastando os escassos recursos, privando-os do seu lazer enquanto zelam por si, também ela encontrará na eutanásia o seu derradeiro acto de amor para com a sua família.

Nos nossos pensamentos e palavras rejeitamos a sociedade egocentrada e individualista, hedonista e economicista que promove a eutanásia; importa que também pelas nossas acções e decisões rejeitemos a eutanásia e promovamos a sociedade solidária e altruísta, que cuida particularmente dos mais vulneráveis e fragilizados. A força moral das pessoas como das sociedades avalia-se pela atenção aos fracos e não pelo temor aos fortes (e seus lóbis).

Celebremos a vida humana como uma experiência de acolhimento de todas as pessoas, igualmente dignas, e como capacidade de responder a todas, nas suas diferentes necessidades.

 

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