Um grande país, pequeno

Opinião de Maria do Céu Patrão Neves

Encontro no filósofo francês Emmanuel Lévinas a definição mais simples e evidente de “ética”: é uma relação não-violenta. A partir daqui podemos elaborar quais as condições necessárias para o estabelecimento desta relação ou quais as responsabilidades de cada um nesta relação; podemos também debater quais os melhores meios, instrumentos, estratégias para edificar esta relação, mas não teremos dúvidas que a coexistência pacífica entre os homens é a expressão mais elementar da relação ética no seio da qual cada um de nós encontra condições favoráveis para a sua realização pessoal e a sociedade encontra recursos excelentes para o desenvolvimento do bem comum.

Construir esta relação não-violenta, construir a paz é difícil, moroso, exige paciência, e uma crescente convocação de boas-vontades. Destruir, pelo contrário, é fácil, muito fácil, rápido, muito rápido, não carece de qualquer virtude, e pode ser obra de poucos ou mesmo de um só. A história já no-lo mostrou, através de diversos protagonistas de um poder absoluto; hoje assistimos à acção destruidora de um protagonista num contexto democrático que gera violência onde toca ou em toda a realidade a que atende, insensível à consequência das suas palavras, dos seus tweets, e entre o aproveitamento pessoal de alguns e a indiferença de muitos dos correligionários da ideologia política que o suporta.

Hoje foi a declaração isolada e descontextualizada de Jerusalém como capital de Israel. E a periclitante tolerância de coabitação de dois povos num espaço confinado esfuma-se no regresso à violência. A troco de quê?! Com benefício para quem?! Não certamente para os Estados Unidos que a cada acção externa do seu Presidente perde peso internacional, ficando cada vez mais confinado às suas fronteiras. Nem mesmo para Israel, não obstante não o poderem admitir publicamente… Estes veem assim comprometido mais um período de paz, com o aumento de vítimas israelitas e a destruição do território; veem regredir o estabelecimento de relações diplomáticas com países árabes; veem a retirada de um mediador forte e sempre amigo nas questões israelo-palestinianas; veem a enorme Turquia, e a sua ambiciosa ditadura, agigantar-se prometendo desafios ainda não experimentados…

Ontem foi na Ásia, contra a Coreia do Norte, semeando o medo na Coreia do Sul, mas também no Japão. Os Estados Unidos saíram beneficiados?! É óbvio para os mais amadores na política internacional que acentuou o descrédito do país na justa proporção da infantilidade das suas ameaças.

Anteontem foi a retirada do país da UNESCO e antes ainda do Acordo de Paris, relativo a metas ambientais – mais uma acção destrutiva que, de maneira diferente, não deixou de fazer ricochete sobre o seu autor: as decisões foram contestadas internamente e foram inúmeros os políticos norte-americanos que publicamente desafiaram a autoridade do presidente reiterando o seu compromisso às metas de Paris; externamente, os visados pelo presidente norte-americano, como a União Europeia, reforçaram a unidade interna e o peso externo.

A sementes da violência, da separação e da discórdia, do conflito e do desprezo têm atrofiado os Estados Unidos na cena externa; a nível interno o país está dividido pela xenofobia, pelo racismo e por tantas outras formas de discriminação que desagregam e enfraquecem. Não é destruindo que se cresce, não é com rupturas que se constrói. O que assusta é que todos somos necessários para construir e poucos bastam para destruir… O grande país está a mirrar e a ficar pequenino… Que ironia para quem adoptou como slogan tornar a América grande…

 

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