Só faço o que me mandam

Opinião de Maria do Céu Patrão Neves

Foi com esta frase que me surpreenderam quando um dia entrei numa instituição açoriana: “só faço o que me mandam”… A serenidade da dona da frase não enganava: não havia qualquer animosidade em relação a mim, não havia qualquer irritação nela. O sorriso confirmou a tranquilidade com que a proferia, mas também a resignação que a formatara: impotente para agir de outra forma no ambiente em que se encontrava e sem alternativa para se mudar para outro ambiente, aceitara converter-se na função a que as chefias a haviam reduzido.

Esta cena fez-me recuar até aos finais do século XIX, quase 150 anos atrás, no que se reporta aos modelos de organização de empresas, de instituições, de organismos vários. Com efeito, as teorias modernas de organização do trabalho remontam à revolução industrial e encontram no filósofo e sociólogo Max Weber um dos seus marcos mais destacados. No período social e político de então, compreende-se que ele tenha elegido a burocracia como ideal organizacional, assim procedendo a uma divisão eficiente do trabalho de uma mão-de-obra excessiva, sem formação e frequentemente também miserável. O modelo burocrático de Weber estruturava-se através da existência de uma autoridade absoluta que impunha legalmente uma ordem rígida, supervisionada e controlada através da imposição de sanções. É evidente que, neste modelo mecanicista e impessoal, cada pessoa era anonimizada e funcionalizada em prol de uma suposta eficiência que, se no passado distante podia ser assim potencializada, hoje não ultrapassa a densidade de uma miragem…

A voz estereotipada de “só faço o que me mandam” não era, porém, apenas um eco do passado, mas produto de um atavismo prepotente capaz de anular a diversidade de cada um, a sua identidade singular, no espartilho do autoritarismo bacoco de quem só esmagando quem o rodeia consegue sobressair.

A evolução dos modelos de organização de empresas, de instituições, de organismos vários tem sido inequívoca numa dinâmica que, tendo partido da mecanização de funções, assente apenas em estruturas e tarefas, disciplinando uma força de trabalho pouco instruída, avançou para a humanização de todos os trabalhadores, através do reconhecimento da singularidade de cada pessoa, do respeito pela diversidade de todas, investindo na sua motivação e colhendo o seu contributo único, a sua capacidade de iniciativa em prol da instituição a que pertencem, constroem e de que se orgulham.

“Só faço o que me mandam” nega uma evolução de mais de um século, de um sistema de organização fechado, em que toda a actividade gira em torno de um chefe autista centrado no seu projecto de poder pessoal, em vez dos actuais sistemas de sucesso abertos que integram cada trabalhador, cada pessoa no projecto comum da instituição, conquistando o seu empenho, compromisso e lealdade (que nenhum regulamento conseguirá obter; a imposição só alcança a obediência frouxa dos que ainda não conseguiram encontrar meio para lhe escapar), promovendo a realização pessoal e o desenvolvimento social.

As empresas privadas existem e subsistem em função da sociedade que servem; as instituições públicas pertencem à própria sociedade e quem as gere temporariamente é um servidor. Quem ainda não o compreendeu está condenado ao fracasso; entretanto, porém, condena à falência as instituições que governa e é a sociedade que perde também.

 

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