Saudade — Opinião de Inês Sá

InesNem todos os dias são iguais. Há dias em que ela se apodera de mim, deambula pelo meu corpo, deixando aqui e ali marcas da sua presença. Nunca arrisca vir sozinha. Teima em fazer-se acompanhar daqueles que me fazem falta, dos momentos que anseio revisitar, de sentimentos travessos que desafiam destemidamente a minha forçada quietude. Nunca a ignoro. Observo-a cada vez mais perto de mim, faço-lhe companhia quando a sinto enfraquecer, alio-me ao seu discernimento, deixando-me envolver naquela dança sem fim. Esboço um sorriso. Deixo cair uma ou outra lágrima. Entrego-me ou apresso o passo, consoante a robustez do amparo. Observo o seu comportamento, tantas vezes controverso perante a dispersão dos meus sentimentos. Questiono atrevidamente. Ponho em evidência quando me espanta. Registo o vazio ou o aconchego que causa em mim. Assim é, aos meus olhos, a saudade.

Temos uma relação antiga, é certo. Nem sempre pacífica, nem sempre impetuosa, julgo que nunca lhe perdoarei a forma descarada e precoce como surgiu na minha vida. Recordo-me bem de a olhar de soslaio, apesar da minha ingenuidade, da sua aparente gentileza e de uma duvidosa inocência, travestida de um “volto em breve”. E voltou, desta feita para nunca mais regressar.

Passados todos estes anos, já perdi a conta das despedidas, das distâncias, das ausências, dos (des)encontros, do afastamento de tantos que gostaria de ter perto. Hoje sei que me rendi aos seus encantos, aceitei-a na minha vida como se dela sempre tivesse feito parte. Acredito até que já não saberia viver sem ela, mesmo com toda a amargura que, de quando em vez, me obriga a saborear, contrastando com a serenidade e gratidão que, também ela, me inspira. É desta forma que encaro a saudade, este sentimento que nos aconchega e nos sossega, exatamente na mesma proporção que nos despe e nos angustia, capaz de transformar os nossos dias e preencher qualquer canto vazio.

Ser ilhéu é também ser saudade. É aceitar distâncias, contornar ausências, abraçar o oceano, crendo que as ondas são as melhores mensageiras do que deste lado acontece, sorvendo delas memórias de outras marés. Ser ilhéu é também sentir orgulho naqueles que partem, acolher os que regressam, encantar os que nos visitam, julgando e aceitando a saudade como um sentimento intrínseco à nossa identidade.

E quando a saudade aperta, quando a bruma extravasa, quando o coração encolhe, quando a garganta engelha, eu sinto-me imensamente afortunada, pelo privilégio que me concederam em fazerem parte da minha vida e pela certeza de que em cada canto, em cada cidade, em cada ilha, em cada momento, fui semeando e colhendo, de forma mais ou menos (in)consciente, o melhor de mim.

A ti, saudade, ao teu constante desafio, ao teu grito mudo, ao teu fiel e ternurento companheirismo, ao engrandecimento que me concedes, jamais te percas na imensidão dos tantos que albergas, porque o sorriso que me provocas, fará para sempre parte da minha vida e daqueles que, na tua e na minha companhia, seguirão.

 

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