Rita Guerra regressa ao local onde deu o seu primeiro concerto na ilha Terceira

rita-guerraA comemorar 30 anos de carreira, Rita Guerra regressou ao local onde deu o primeiro concerto, na Messe de Oficiais da Base das Lajes. Tinha 13 anos quando andou pela primeira vez de avião. Foi em 1981, num C-130 da Força Aérea, que a levou, a ela, ao irmão mais novo e aos pais, para a ilha Terceira, nos Açores, onde o pai, então major, havia sido colocado como adjunto do comandante da Base das Lajes.

“Foram os melhores anos da minha vida”, confessa a cantora, ainda dentro do autocarro militar, na Base Aérea de Figo Maduro, a caminho do avião militar que a levará de volta, pela primeira, vez à base onde viveu quatro anos. Nem de propósito, no rádio do autocarro ouve-se a voz de Adele, cantar o tema Diamonds in the Sky, que acentua ainda mais a “ansiedade do regresso”.

O avião, um C- 295M, mais pequeno mas em tudo o resto idêntico ao famoso Hércules (“barulhento, frio e com os mesmos bancos de lona de costas viradas para a janela”), acentua ainda mais a saudade desses tempos, tão importantes na vida de Rita Guerra, mas também na sua carreira musical, que este ano cumpre três décadas. Já dentro da aeronave, uma jovem oficial que, tal como então o pai de Rita, está de partida para uma missão nos Açores, pede-lhe para tirar uma foto. “Sou uma grande fã, já assisti a muitos concertos seus. Aquele momento com os HMB, no CCB, foi fantástico”, diz-lhe, enquanto enquadra o telemóvel, num momento que se repetiria muitas mais vezes ao longo do dia.

Ao aterrar na pista, quatro horas depois, Rita não consegue esconder a emoção. “Incrível, está tudo quase igual, as recordações que isto me traz”, diz, enquanto, ainda desde o ar, vai fazendo uma visita guiada à base, apontando alguns dos locais que tão bem conhece. Já em terra, a primeira paragem é no clube dos oficiais portugueses, em que é esperada pelo atual comandante da base, o coronel César Rodrigues, e pelo comandante da Zona Aérea dos Açores, o brigadeiro-general Eduardo Faria, que guiam a artista por um espaço que tão bem conhece. Rita pergunta pela “mesa de snooker gigante” e lá está ela, noutro local, mas tal qual como nas suas recordações. Ou pelo salão de festas, “onde nem sequer faltava uma discoteca com bolas de espelhos e tudo”, para os filhos dos oficiais aqui colocados se divertirem. A bola de espelhos continua por lá, pendurada, atrás de uma cortina, mas o espaço há muito que parece não ser usado para dançar.

A um canto, a novidade é um solitário piano, ao qual Rita Guerra não resiste, começando por dedilhar o tema Your Song, de Elton John, seguido de Wish You Were Here, dos Pink Floyd, e de Secretamente, um dos seus maiores êxitos. Um improvisado mas muito sentido concerto, prontamente imortalizado nos telemóveis de alguns dos militares presentes. “Comecei a tocar no piano da minha avó, por influência do meu irmão Pedro, mas foi aqui nos Açores que aprendi realmente a dominar o instrumento”, adianta. Além das aulas no Conservatório Regional de Angra do Heroísmo, em que tinha aulas depois do sair do liceu, “praticava também muito no piano do clube dos oficiais americanos”. Foi aí que acabaria por dar o seu primeiro concerto público, num almoço do Dia da Mãe americano, perante uma plateia composta pelas mulheres dos oficiais. “O barman, que me deixava lá tocar, convidou-me. Estava cheia de medo, mas acabou por correr muito bem”, lembra. Tocou Kim Carnes, Elton John e o tema House of the Rising Sun, dos The Animals, uma música que ainda hoje, por vezes, interpreta nos concertos. “No final deram-me 15 dólares. Foi o meu primeiro cachet, que usei para comprar uns ténis Nike” [risos].

Uma família para a vida

Já são muito poucas as pessoas que se mantêm na base, do tempo em que Rita Guerra lá viveu. Mas ainda há quem se recorde de a ver a andar de bicicleta para todo o lado, com os amigos, como Paulo Fagundes, na altura barman no clube dos oficiais portugueses e hoje funcionário da Rádio Lajes. Mal entra pela porta, Rita corre para ele e por ali ficam, por momentos, num longo e forte abraço, desfiando memórias desse tempo.

“Foram quatro anos maravilhosos, numa fase muito importante da vida, a adolescência, que contribuíram muito para ser aquilo que sou hoje. Éramos uma verdadeira família e, passados tantos anos, é incrível como ainda me sinto em casa”, revela a artista, que sublinha “a sensação de liberdade”, “a grande qualidade de vida”, “os muitos amigos”, “o ter tempo para tudo” e especialmente “poder ir à praia durante o ano inteiro” – “Íamos de bicicleta para a praia da Vitória e só regressávamos ao final do dia”. Quando soube que ia para uma ilha, via-se a viver num destino tropical, com palmeiras e areais banhados de mar azul a perder de vista, mas o que encontrou acabou por se revelar muito melhor do que o imaginado. “As grutas, o verde e as praias de areia cinzenta, ter as quatro estações do ano num mesmo dia. Foi aqui que me apaixonei pela natureza e me tornei anticidade para o resto da vida”, afirma com humor.

A casa onde viveu, na Praceta da Bolacha, no bairro dos oficiais portugueses, ainda lá está, no topo da colina, e Rita não resiste a ir visitá-la. É hoje habitada por uma jovem oficial que, vestida de camuflado, lhe abre a porta e a convida a entrar. “Tinha o sonho de um dia voltar à base, mas nunca pensei poder voltar a estar no meu antigo quarto”, diz, sem disfarçar a comoção. Por momentos, volta a ser a adolescente que se aconchegava aos pais, com os cães a seus pés, a ver televisão na sala. Ou a empanturrar-se, nas traseiras, com os frutos das groselheiras que já lá não estão.

O passeio continua agora pela base americana, na qual Rita Guerra bebeu muita da sua formação musical. “Tínhamos acesso a muita música que vinha dos EUA, que não se ouvia em mais lado nenhum e isso acabou por influenciar muito a minha carreira”, assume. Começa por passar pela antiga pista de patinagem, que é hoje um armazém logístico. “Era um típico bar americano, com cabina de DJ, hamburgueria e salão de jogos, onde fazíamos tudo de patins”. “Então por isso é que isto tem este piso”, exclama, admirado, um militar americano, que não fazia ideia do passado do seu atual posto de trabalho. “Foi aqui que parti o queixo”, aponta a cantora, divertida. Depois da fotografia da praxe com um grupo de funcionários civis locais, o destino seguinte é o clube dos oficiais americanos. No bar, que mais parece saído de um filme de Hollywood, Rita aproveita para matar saudades de um whisky sour, um cocktail tipicamente americano, feito de Bourbon, sumo de limão e xarope de açúcar. “Na altura não tinha idade para beber álcool, mas, como era crescida e conhecia o barman, ele deixava-me provar”, conta divertida. O Salão Lisboa, onde deu o tal primeiro concerto, também já não está igual.

A janela panorâmica com vista para a praia da Vitória, de que Rita falou durante toda viagem, encontra-se agora tapada por uma parede. E o piano também não, mas na memória de Rita Guerra continua tudo igual, afinal, foi aqui que tudo começou. E isso, por muito que tudo mude, nunca se esquece.

 

 

 

 

Foto: Sara Matos/GI

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