Poupem os ouvidos — Opinião de Maria do Céu Patrão Neves

A consciência dos malefícios individuais e colectivos da poluição é hoje ímpar e, por isso também, nunca como hoje a sociedade – através do Estado, das instituições e dos cidadãos – se empenhou tanto no seu combate, procurando continuamente mitigar a poluição e os seus efeitos nos vários contextos em que esta se faz sentir, na terra, na água e no ar.

Os exemplos de acções contra a poluição poderiam, felizmente, ocupar toda esta crónica… Para preservação do meio ambiente terreste temos vindo a aprender a reciclar os resíduos domésticos, a reduzir o uso dos plásticos e até (alguns) a reduzir o desperdício nas suas múltiplas modalidades quotidianas… É verdade que ainda há quem mantenha a virilidade de cuspir na rua, a displicência do livrar-se da beata, e parece que quem persiste em atirar pastilhas elásticas na rua também, ainda não pisou as suficientes para perceber que o seu desleixo incomoda muita gente. Mas também estes vão rareando.

Para preservação do meio ambiente aquático, já percebemos que lavar a fachada da casa ou a rua à mangueirada corresponde ao esbanjamento de um bem escasso e que esconder o lixo em lagoas, ribeiras ou no mar não impede que este regresse, frequentemente aumentado e com consequências nefastas na eutrofização das lagoas, no transbordo das ribeiras, na inundação de lixo das zonas costeiras… É verdade que ainda há quem mantenha o costume domingueiro de lavar o carro à porta de casa, deixando também a mangueira esquecida a escorrer, criando aquelas súbitas ribeiras que nos obrigam a saltar do passeio, ou até os amantes da pesca que deixam impactantes vestígios da sua actividade nas rochas, quando não atiram para o mar os restos da linha ou as garrafas de cerveja. Mas também estes hábitos vão rareando.

Para preservação do ar, há muito que nos preocupamos com as emissões de gases poluentes por fontes fixas, como as fábricas, ou fontes móveis, como os veículos que alteram a composição química da atmosfera… É certo que o conforto da utilização dos CFCs, como os purificadores do ar, que contribui para a destruição da camada do ozono que deveria manter a temperatura média do planeta, é difícil de prescindir e continuamos a fumar, indiferentes a toda a evidência dos seus danos para a saúde pessoal e pública, agora produzindo aquelas cortinas de fumo à porta de qualquer edifício por que todos temos de passar.

Não obstante, o bom cidadão é um militante contra a poluição!  

Vamo-nos, porém, esquecendo de uma outra forma de poluição que, sob diversos disfarces, vem manifestamente aumentando. Refiro-me à poluição sonora. Não fazendo menção aos que adormecem a ouvir o miar e os gritos de acasalamento dos gatos selvagens (cujo número multiplicou desde a proibição do abate de animais errantes como forma de controlo da população), e aos que acordam com os cães domésticos que começam a ladrar e a uivar ainda de noite, numa cacofonia com todos os muitos caninos do bairro, quero fixar-me no gosto que a maioria de nós terá em ouvir música. Esta é-nos hoje imposta em qualquer ocasião, de qualquer género e sempre em decibéis impróprios para a saúde: é o carro com o volume no máximo que atordoa as ruas por onde passa, ou até aquele cujo dono vai tomar café sem dar descanso ao CD, impondo o seu gosto musical com todos os presentes e mesmo aos ausentes a larguíssimos metros de distância; mas é também o jovem que não disfruta a praia sem som, nem deixa os outros disfrutar a tranquilidades. Entretanto, o uso supostamente consciencioso dos auriculares não trava a partilha do batuque da suposta música (o que nos pode interrogar sobre a agressão sonora a que aqueles tímpanos estão sujeitos) e a mais recente moda de visualização de filmes em tablets em espaços públicos (por vezes o nosso vizinho no avião) dispensa sempre auriculares… Ainda podíamos mencionar todos aqueles que encontraram no telemóvel um altifalante invertido em que é o emissor que grita, quase dispensando afinal o telemóvel. Ficamos a saber da sua vida e da dos seus, com pormenores bizarros pelo meio que claramente pertencem à categoria de poluição sonora.

O som indesejado e elevado no espaço público incomoda e pode mesmo agredir, e suprimir poluição sonora é também um acto de civilidade.

 

www.mpatraoneves.pt

 

Link permanente para este artigo: http://maiscentral.com.pt/poupem-os-ouvidos-opiniao-de-maria-do-ceu-patrao-neves/

Deixe uma resposta

Your email address will not be published.