Perplexidades — Opinião de Maria do Céu Patrão Neves

Estes últimos largos dias têm sido efervescentes de notícias socialmente relevantes, tornando difícil a escolha de um tema para hoje, não por defeito mas por excesso. Refiro-me ao plano nacional e internacional, contrastando, aliás, com uma certa mornaça que grassa entre nós, reveladora de que as férias de verão ainda duram…

No plano internacional, a minha perplexidade e preocupação é suscitada já não pelo ataque de Trump à comunicação social (barómetro da qualidade e saúde da democracia de um país), mas pelo apoio da maioria dos republicanos ao seu discurso anti-democrático e reiteradamente xenófobo, racista e sexista, além de instigador à mentira e ao ódio. Os valores em que construímos as nossas sociedades são hoje quotidianamente bombardeados por um homem que, absurdamente ridículo, mantém números elevados de seguidores entre ignorantes e interesseiros. E ambos nos obrigam a repensar o regime democrático, de governo do povo para o povo.

Mas é no plano nacional que a perplexidade se exalta perante tantas e tão contraditórias notícias…, que certamente confundirão quem, com um mínimo de objectividade, reunir a torrente de informações que vem sendo derramada e resistir ao seu efeito anestesiante…

Talvez uma primeira notícia surpreendente seja a das diferentes regras de apoio para quem perdeu a sua casa no incêndio de Pedrogão ou de Monchique. Uns são ressarcidos da totalidade, os outros só de parte. Porquê?! Porque as vítimas do primeiro incêndio fizeram elevar os protestos e o tornaram mais mediático…? Havia então que deitar mais água, leia-se “mais dinheiro”, para a fogueira.  Mas quem viu a sua casa arder em Pedrogão ou em Monchique viu o mesmo, perde o mesmo, sofre o mesmo. É isto a justiça?

Bem…, não. Justiça é mesmo não permitir que os dirigentes do sector privado ganhem ordenados a perder de zeros… Afinal, se os que ganham muito passarem a ganhar menos ficamos todos mais próximos! Mas eu devo reconhecer que preferia que os que ganham menos passassem a ganhar mais e ficássemos assim também mais próximos. É claro que, pela primeira via, o Governo não gasta tostão e o seu moralismo populista ainda lhe dá uns votos; pela segunda, o Governo teria de pagar e, afinal, não há dinheiro!

Pois é, sabemos agora que não há dinheiro para pagar os descongelamentos das carreiras dos professores e de tantos outros sectores que começam também a reclamar o mesmo. E com a arrogância autoritária com que o nosso Primeiro-Ministro responde quando se sente incomodado, afirmou que o tempo não volta atrás… Vejamos, disse exactamente ser impossível recuperar carreiras congeladas, sublinhando também ser “preciso que todos tenham a noção de que é impossível refazer a história”. Ahhhh…, perplexidade das perplexidades: mas não é este o governo das reversões?!?! Então passaram estes últimos anos fazerem reversões, sem programa de governo que não fosse o de reverter o que o governo anterior fez, e agora já não revertem mais? Já não é possível reverter a história?!

Reescrever a história é que não é possível porque, se fosse, este governo tinha acrescentado rapidamente umas palavras de louvor ao governo de Passos Coelho que, com a troika instalada em Portugal pela mão dos socialistas, a conseguiu mandar embora sem qualquer programa remanescente. Umas palavrinhas que, pelo menos não ficassem atrás dos parabéns efusivos que dirigiriam à Grécia por se ter libertado do jugo da troika!

Bem, podia continuar de perplexidade em perplexidade, mas as linhas não dão para mais e com tanta perplexidade estou a ficar exausta e a precisar de férias outra vez. Ainda bem que por aqui nada mexe…

 

*A autora não subscreve o acordo ortográfico

www.mpatraoneves.pt

 

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