Participação cívica

Opinião de Inês Sá

Das várias coisas que me dão prazer na vida, assistir a um debate, um workshop, a um seminário ou conferência, independentemente do assunto em causa, é algo que me sabe sempre bem. A razão é de fácil compreensão e prende-se sobretudo com uma necessidade intrínseca de aprender. É algo de que nunca me canso e para o qual estou sempre disponível.

Aliás, já há alguns anos que cheguei à conclusão que o meu emprego de sonho seria estudar, conhecer diferentes cursos, abordar matérias tão díspares quanto opostas. Entre as ciências e as letras, a minha curiosidade não se esgota em nenhuma das áreas, certa de que qualquer uma delas me iria trazer algo de novo, algo que ainda não trago na bagagem da forma como gostaria. Mas a vida não se faz apenas de caprichos, pelo contrário, dá-nos muitas vezes a certeza de que nem todos os sonhos são concretizáveis, alguns vão sendo constantemente adiados, talvez pela sua irracionalidade, ou até apenas pela impossibilidade de lhes dar forma na vida real, na certeza de que dificilmente serão esquecidos.

Totalmente consciente e também bem resolvida que está esta dualidade, tenho tido o privilégio de, neste âmbito, participar em diferentes ações, da iniciativa dos mais diferentes atores da nossa sociedade. Normalmente levo alguns dias a refletir o assunto sobre o qual se debruçou determinado encontro, atrever-me-ia até a dizer que me fica sempre um sabor amargo, algo que não ficou devidamente saciado, quase como um livro não terminado. As condicionantes temporais que normalmente se impõe, são evidentemente limitadoras, o que consequentemente impossibilita aprofundar o assunto da forma que ele merece, ou apenas da forma que eu esperava vê-lo abordado. Até aqui, a culpa será toda minha e das expectativas que deposito no momento. Outra culpa existirá algures na consciência de cada um, principalmente daqueles que monopolizam o momento, deturpando completamente o âmbito do mesmo, apenas pela ganância de terem alguns minutos de antena, que até dão algum jeito politicamente, numa busca desenfreada pela atenção da plateia, quiçá na esperança de ali angariarem alguns votos. E francamente, presente que já estive nos mais diferentes momentos que se espera de reflexão, sou tentada a concluir que, independentemente da constituição da plateia, os intervenientes acabam quase sempre por ser os mesmos, assim como o intuito das suas intervenções.

Bem sei que no jogo dos interesses, tudo é válido, tudo é permitido, o importante é alcançar o objetivo final. Mas será que não há o mínimo de bom senso? De razoabilidade? Talvez a esperança seja mesmo vencerem-nos pelo cansaço, quase como se a repetição exaustiva do mesmo discurso, nos levasse a crer nas suas teorias. Possivelmente.

Numa sociedade que se quer participativa, numa altura em que urge incentivar as camadas mais jovens a terem uma voz ativa, a refletirem sobre a atualidade, a opinarem, a questionarem o seu futuro, há quem seja capaz de conscientemente os silenciar, de ignorar a sua presença, assumindo invariavelmente o protagonismo de qualquer que seja o debate.

E regressando ao inicio deste pequeno desabafo, se há sonhos que dificilmente concretizarei, outros há pelos quais sempre me debaterei! Estimular, agitar e incentivar a participação cívica dos mais novos, é porventura responsabilidade de todos nós, especialmente dos mais velhos.

 

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