O retrocesso moral — Opinião de Maria do Céu Patrão Neves

Hesito sobre o tema a seleccionar para a crónica de hoje… A tentação das últimas semanas tem sido Trump. Mas tenho resistido…

É verdade que uma crónica admite um largo espectro temático e tanto permite a divulgação de informação pertinente sujeita a uma análise, seja positiva ou negativa, como uma reflexão à margem de factos mas de interesse social, seja de aplauso ou crítica. Mas a verdade é que a minha apreciação de Trump, do cidadão como do Presidente, não se tem conseguido inscrever em nenhum dos parâmetros admissíveis para uma crónica, mesmo dentro dos menos exigentes.

A cronista tem certamente muito para aprender e treinar na sua prosa (a prática faz a perfeição!), mas neste caso particular o problema mais radical estará no tema: Trump. É evidente que denunciar o seu egocentrismo autista, sem possuir competência em psiquiatria, pode facilmente resvalar para o insulto, o que não considero dever ter espaço num jornal. Apontar a inevitabilidade deste traço de carácter se manifestar sob a forma de uma teimosia arrogante, fechada na sua suposta auto-suficiência, e insultuosa de todos os demais, não se furtaria à censura de atingir a pessoa e não a função ou o desempenho institucional, o que também considero impróprio em comunicação social. Não tendo conseguido avançar para além desta perspectiva absolutamente elementar sobre Trump ou tão pouco conseguido comentar algumas das suas propostas hoje convertidas em presidenciais, pareceu-me não só prudente para mim mas também respeitador dos leitores contornar este tema. Eis o que tenho feito até ao presente.

Hoje, porém, legitimada pela apreciação de uma orientação política de Trump, posso ceder à tentação de tomar o actual presidente dos Estados Unidos como tópico da minha crónica. É verdade que já o podia ter feito quando o presidente Trump anunciou reverter as anteriores fundamentais medidas norte-americanas tomadas e os fundos atribuídos para o combate às alterações climáticas e a protecção ambiental, numa atitude cientificamente ignorante, politicamente incorrecta e humanamente desastrosa. Também já o podia ter feito quando o presidente Trump denunciou o Tratado de Associação Transpacífico (o primeiro dos próximos) numa opção não só proteccionista mas isolacionista, incompatível com a dimensão de um país como os Estados Unidos e a sua importância no mundo global, além de anacrónica, na busca de um passado que não voltará (foi também um saudosismo fútil que deu a vitória ao Brexit). Podia ainda tê-lo feito quando o presidente Trump confirmou ir construir um muro ao longo da fronteira com o México e mandar a conta a este país, num episódio que, além de contar com a oposição dos próprios republicanos e rancheiros norte-americano, seria inédito no contexto das relações internacionais e insultuoso, para não dizer mesmo agressivo entre vizinhos. As tomadas de decisão do presidente ilustram o carácter do homem.

Mas o que me fez mesmo escrever sobre Trump é a sua mais recente defesa da tortura como meio legítimo para obter informações de alegados terroristas. Não questiona se todos os que poderão vir a ser vítimas de tortura serão efectivamente terroristas…; se todos terão efectivamente informações privilegiadas…; se ao legalizar este procedimento bárbaro numa determinada situação não está a facilitar a sua generalização a outras que, num dado momento, se perfilam igualmente pertinentes; se “combater fogo com fogo” – como diz – é justo em sociedades ocidentais em que a lei de Talião – olho por olho dente por dente – há muito cedeu perante o dever da solidariedade e do espírito de interajuda – faz aos outros o que gostarias que te fizessem a ti; ou se será eficaz perante o extremismo radical islâmico ou equivalerá meramente a “deitar achas para a fogueira”. Em qualquer caso, assistimos a um retrocesso civilizacional na negação dos valores protagonizados pelos Direitos Humanos que, ainda aquém do ideal, têm contribuído decisivamente para sociedades mais justas e solidárias, têm constituído uma base sólida para o progresso moral. O presidente Trump com a recuperação da tortura (em convergência com as suas demais posições) assina o tempo do retrocesso moral.

 

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