Jan 27 2018

O Ministério da Solidão — Opinião de Maria do Céu Patrão Neves

O governo da Reino Unido anunciou recentemente a instituição de um novo Ministério, o da Solidão. Esta notícia podia ser tomada como uma “peta de 1 de Abril”, mas a data ainda está longínqua… Dependendo da sua fonte e de quem a divulgou ou do órgão de comunicação social que primeiro a apresentou…, poderíamos pensar tratar-se de um sketch humorístico ou um segmento do “inimigo público”… Mas não! Foi a Primeiro-ministro britânica, Theresa May, que o anunciou e o facto não podia ser mais sério: a solidão é enunciada como uma doença grave, que hoje se manifesta como epidemia e que ameaça continuar a alastrar, pelo que merece um Ministério que se lhe dedique procurando contrariá-la.

Apesar de surpreendente, a ideia não é nova, como o alastramento da solidão também o não é. A deputada inglesa Jo Cox, tristemente célebre por ter sido assassinada em 2016 durante a campanha contra o Brexit, havia já criado uma Comissão para a Solidão, apelando então a que o problema viesse a ser considerado ao mais alto nível político, isto é, assumido por um Ministério, o que agora se confirma.

E sim, estamos cada vez mais sós… Estamos sós porque envelhecemos e vivemos cada vez mais tempo, os filhos partiram para um qualquer lugar do mundo ou não os tivemos, a família foi-se dispersando e reduzindo-se, os amigos também mudaram de casa ou foram morrendo ou, afinal, nunca construímos laços de amizade forte porque estávamos a trabalhar, tínhamos a carreira…

Estamos cada vez mais sós porque centrámos a nossa vida em nós mesmos, cultivando um individualismo a que chamámos liberdade, desenvolvendo a indiferença a que chamámos tolerância, substituímos as pessoas com que anonimamente nos cruzávamos pelos animais de estimação, que fomos escolhendo e aos quais demos nomes de pessoas, e pelas redes sociais ou “amigos” do Face Book que tanto adorámos como bloqueámos.

Vamos ficando cada vez mais sós e a solidão é contra a nossa natureza biológica, psicológica e social enquanto seres gregários que somos, seres de relações afectivas e de cooperação mútua. Por isso, a solidão perturba o equilíbrio das diversas dimensões da nossa existência, afecta o nosso bem-estar, vindo a ser interpretada como doença que deprime o espírito e definha o corpo.

Não sei se a solidão é sintoma de uma doença ou causa de muitas doenças, não sei se é manifestação de uma doença social ou se modela as sociedades ocidentais contemporâneas como anonimizantes e desagregadas, ou se, afinal, exprime todas estas realidades simultaneamente… Qualquer que seja o diagnóstico e a terapêutica, importa que tome em consideração as várias dimensões do humano que se encontram implicadas na solidão.

Certamente nesta percepção, o Ministério da Solidão está destinado a mobilizar e optimizar acções no plano intergovernamental, actuando de forma transversal à sociedade. Reconheço que a criação deste Ministério tem a virtude de testemunhar o reconhecimento do problema da solidão e da sua gravidade nas sociedades actuais, e também de procurar agir no sentido de minimizar os seus efeitos devastadores na saúde e bem-estar das pessoas. Porém, dificilmente beliscará o alastramento da solidão se nós próprios não revirmos o estilo de vida por que optámos e em que continuamos a investir e os modelos de organização social que implementamos quotidianamente, na família, no trabalho e no lazer…

 

www.mpatraoneves.pt

 

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