Novas lideranças — Opinião de Sofia Ribeiro

Encontro-me a preparar a minha intervenção na Universidade de Verão da JSD/Açores, que me solicitou a abordagem dos desafios futuros da União Europeia. O Brexit, o êxodo de refugiados, os nacionalismos, a xenofobia, o desemprego, a pobreza, o envelhecimento, a desadequação do mercado laboral, o atraso tecnológico e científico são, obviamente, problemas imediatamente suscitados, de entre outros. Embora não tenha dúvidas que sejam estruturais e, portanto, condicionadores do nosso futuro, pergunto-me se estará tudo simplesmente a desmoronar-se à nossa volta, ou se há um elemento comum, ainda que não o único responsável por cada um destes problemas, mas nos quais estes se alicercem. Constato que todos se alimentam da desinformação (propositadamente suscitada ou mesmo natural), do vazio de projectos, da falta de orientação. Estão enraizados na falta de liderança.

Um pouco por toda a Europa prolifera uma estratégia política de fuga aos temas fracturantes, para não se ferirem susceptibilidades que ponham em causa possíveis maiorias. São dadas respostas evasivas, o mais genéricas possível, mas com a habilidade de simultaneamente satisfazer (calar) o interlocutor e de gerar o cabeçalho informativo do dia. Estimula-se o discurso político onde caiba tudo e mais alguma coisa, mas que crie a ilusão de uma atenção particular. Utilizam-se jargões como “valorizar a juventude”, “estimular a economia”, “criar emprego”, “apoiar a inovação”, “defender a agricultura” ou “proteger as pescas”. São objectivos consensuais, mas frequentemente não acompanhados de um pacote de medidas específicas para que sejam atingíveis, para que não haja compromisso. E não havendo comprometimento, é mais fácil garantir-se a sobrevivência política, alicerçada no desgaste do adversário e não na construção de uma estratégia própria, na presença permanente e não na proactividade.

Contudo, esta busca pela consensualização de massas, acompanhada pelo profundo receio de acicatar antinomias, acaba por gerar a desmotivação do eleitor, expressa na abstenção crescente. A dura realidade é que esta não constitui necessariamente um obstáculo, pois os não votantes não alteram resultados eleitorais. Desde que se mantenha o status quo, a sobrevivência está salvaguardada.

Para além de minar a democracia, este modus operandi é ainda responsável pelo surgimento e crescimento de movimentos extremistas e/ou demagógicos que, por oposição, se alimentam do caos, tomando como seus os receios das pessoas, carentes de uma classe política que as represente sem meias-palavras. Sustentados por minorias e legitimados pela apatia da maioria, tais movimentos vão proliferando, o que é assustador, e como dependem do caos, suscitam-no ainda que sub-repticiamente.

O desafio que se coloca é o da liderança. Para se ser líder, é preciso sê-lo, activa e reconhecidamente. Não basta ocupar um cargo, há que conquistar o respeito do Povo. É preciso falar claro, com a coragem de apresentar propostas concretas, combatendo a apatia com a defesa de uma posição alicerçada no conhecimento. É isto que distingue a sobrevivência política da construção de um projecto político. Para se ser líder não basta ter vontade, é necessário ter visão. Só assim poderemos construir, ao invés de permanentemente resolvermos problemas. Creio ser esse um bom desafio para a nossa Europa, para a nossa Juventude, mas que não carece do amanhã para ser posto em marcha.

 

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