Na poupança está o ganho — Opinião de Maria do Céu Patrão Neves

Não, não quero ser “desmancha prazeres” e, no meio da euforia generalizada do crescimento da economia portuguesa e da redução do desemprego, dizer “que vem aí o diabo”…! Não quero tão pouco “pôr água na fervura” e argumentar que o crescimento económico de Portugal se deve mais à conjuntura internacional e sobretudo europeia do que a intervenções governativas nacionais eficazes na dinamização do tecido empresarial ou em propostas inovadoras adaptadas à rentabilização de potencialidades específicas; ou argumentar que, não obstante os valores positivos, estamos a crescer menos do que a média europeia, o que significa que continuamos a divergir e a contribuir para o fosso entre a Europa de uns e a Europa de outros, que criticamos; ou argumentar que, para além da anunciada taxa de 8,5% do desemprego, se somarmos os subempregados, os ocupados em centros de emprego e os que já desistiram de procurar emprego, teremos um valor a disparar para os 17,5%. Afinal, esta ocultação dos valores reais do desemprego não é de hoje…

Para além da macroeconomia, preocupa-me a pequena, a pequeníssima economia, a economia doméstica, a de lá de casa… Neste âmbito, o economista talvez comece por olhar para o agravamento do nosso défice comercial, o quarto maior da União Europeia em 2017, com as importações a ultrapassarem as exportações (em 13,8 mil milhões de euros)…, isto é, em linguagem caseira, a gastarmos mais do que produzimos. Mas o cidadão comum olha à sua volta e, ao mesmo tempo que gasta mais confiante de que não lhe vai faltar, pode ver antes o número de famílias endividadas a bater um record em 2017, desde a entrada da troika em Portugal em 2011; e vê certamente os níveis de poupança das famílias continuarem a cair tocando nos mais baixos valores desde 1999…

Em tempos de “vacas magras”, como nos dizem terem passado, como em tempos de “vacas gordas”, como nos dizem estarmos a viver, a poupança é a melhor defesa da economia doméstica para permitir concretizar grandes projectos sem endividamento, como para resistir a imprevistas adversidades: poupar na electricidade e na água, o que também contribui para a preservação ambiental; poupar no que se compra e rapidamente se deita fora, desde folhas de papel em que só se escreveu de um lado, à comida no prato que enche o lixo doméstico, numa redução do desperdício a todos os níveis da actividade humana; poupar nas pequenas coisas do dia a dia – o café que se bebe ou o bolo que se come – e então perceber que só se deve gastar 1 se se tiver pelo menos 2 e que se tivermos 2 devemos colocar de lado alguma coisa….

Qualquer que seja a sua interpretação do tempo presente, com ou sem diabo atrás da porta, com a vaca a engordar ou a emagrecer, a tripla máxima de não gastar o que não se tem, de gastar menos do que se pode e de poupar sempre, vai beneficiá-lo.

 

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