Mulheres — Opinião de Inês Sá

Lá por casa as mulheres são rijas. Talvez a minha costela de mulher nortenha contribua para isso, porque na verdade dificilmente ficamos doentes, tanto eu como a mais nova. Os viros bem que tentam, mas dificilmente nos conseguem vencer, tal é a eficácia das nossas defesas ou a ruindade que nos impele.  Este ano a fava foi certeira e decidiu brindar-nos no Dia da Mulher com uma virose maluca. A agitação da noite anterior fazia antever o dia seguinte, quase todo ele passado entre o sofá, a cozinha, o portátil, a televisão e o telemóvel. Ora sai mais Brufen, ora espreito os emails, ora sai uma canjinha enquanto aproveito para fazer 2 ou 3 telefonemas, ora dou colinho com a promessa de que o dói-dói está quase a passar, tentando gerir a todo o instante a angustia de não ter ido trabalhar, pontualmente dissipada com um genuíno e avassalador “obrigado mãe, por teres ficado aqui comigo”. Quando a febre a vence e o desespero se adensa, dou por mim, quase em tom de suplica, a pedir aos céus para que transfira o dói-dói para mim, sussurrando-lhe ao ouvido esta minha intenção. Não há febre que a dobre, nem desabafo que fique sem resposta: “não mãe, para ti não, não te quero ver sofrer”. Sorrio. Derreto-me. Deito-me no seu colo, invertendo conscientemente os nossos papeis. Nunca conseguirei definir tamanho amor, tal é o alcance, a singularidade e o poder que o caracteriza. Recordo-me de alguns meses depois do meu primeiro filho nascer, colocar por diversas vezes em causa todos os sentimentos que até então eu havia experienciado, porque afinal, este sim, era tão diferente e tão mais intenso, que teria de ser uma coisa ainda maior do que o amor ou então, o amor, era algo que eu nunca antes tinha sentido. Inclino-me mais para a primeira hipótese, na impossibilidade de, à semelhança da palavra “saudade”, não conseguir nem ousar definir, o que é na realidade o amor.

Por incrível que pareça, recordo-me bem de, ainda não há muitos anos, ver serem excluídas de um processo de recrutamento levado a cabo por uma empresa privada, maioria das mulheres que eram mães, não tendo sido sequer dada a estas, a oportunidade de passarem para a fase posterior à entrevista. Consequência desta exclusão, há ainda hoje mulheres que, por receio de não serem consideradas, omitem deliberadamente a existência de um ou mais filhos. Este pensamento retrogrado felizmente que tende a dissipar-se, muito por força do esforço, muitas vezes silenciado, que todas nós mulheres e mães, fazemos para que a maternidade deixe de ser significado de menor disponibilidade, ou até competência.

Por ter total consciência de que esta não é ainda uma luta ganha e que muito caminho ainda há a percorrer no que concerne à igualdade entre homens e mulheres, não posso deixar de enaltecer as declarações proferidas muito recentemente por Kevin O’Leary, empresário de sucesso com mais de duas dezenas de empresas a seu cargo, onde entre outras verdades relativamente à capacidade de liderança e de organização das mulheres, ele conclui que “Se quer alguma coisa bem-feita, peça a uma mãe ocupada.”. São sem dúvida palavras que me enchem de esperança, que me fazem acreditar que no futuro a igualdade de género deixará de ser apenas retórica para alguns e utópica para muitos. Já é tempo de deixarem de subestimar a nossa agilidade, a facilidade com que nos reinventamos e nos desdobramos, mesmo sem nunca nos ter sido concedido o dom da omnipresença.

 

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