Missionários da Governança

Editorial, por Carlos Pires

 

A nossa memória está repleta de histórias de Missões, religiosas ou não, que, desde sempre, têm tentado incutir, ou forçar, uma determinada doutrina, na ambição de converter um determinado grupo.

Esta semana, também tivemos nos Açores, em concreto na Terceira, “missionários”, com a incumbência de trazer novas ― todas elas já velhas ― de futuros investimentos “estruturantes” para a ilha.

Propagandistas, louvados pelo seu trabalho ― como se a isso não estivessem obrigados pelos cargos para os quais foram eleitos ―, vieram, na semana do Senhor Santo Cristo dos Milagres, trazer a esperança da viabilização do futuro económico e social de uma comunidade, farta de anúncios e melodias, mas sempre respeitadora da sua crença.

Concretizando, falo da visita dos deputados socialistas eleitos pelos Açores para a Assembleia da República e das suas novidades sobre dois projetos considerados, pelo Governo regional, “essenciais para o desenvolvimento da Região” ― a saber: Terminal de Cargas da Aerogare Civil das Lajes e a reabilitação de habitações e edifício escolar deixados vagos pelas forças militares norte-americanas.

Incidindo sobre este último projeto, segundo Sérgio Ávila, “a primeira fase de um projeto mais vasto, o Terceira Tech Island”, admito que fiquei surpreso. Então, se só agora foi concluído o processo de passagem formal da posse destas infraestruturas para a Região, como foi possível a Vasco Cordeiro anunciar, a 18 de janeiro, em plena sessão do Parlamento, que no mês seguinte (fevereiro) seria lançado o concurso público para a primeira fase de reabilitação do bairro Beira-Mar, composto por 138 casas, assim como do complexo escolar deixado vago pelos EUA?

À falta de argumentos para participar de uma forma eloquente e verdadeira no debate de urgência sobre o “Acordo da Base das Lajes e as medidas de compensação do downsizing”, o presidente do Governo dos Açores precipitou-se nos anúncios, sabendo, à partida, que a sua execução não seria possível. Aliás, foi no mínimo estranho, que tendo lido, no plenário de novembro, a missiva que endereçou ao primeiro-ministro, António Costa, e onde abordava a questão, o mesmo não tenha feito quando recebeu a resposta da República.

Constatando o sucedido, não me surpreende que, durante este mês de maio, e depois de findas as festividades religiosas e o Dia da Região, surjam, novamente, os “missionários”, para “informar” das novidades sobre o início da instalação do radar na Serra de Santa Bárbara, em tempos anunciada para junho.

 

Foto: Direitos Reservados

 

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