Licenciado, especialista ou competente? — Opinião de Inês Sá

InesPois parece que pegou moda esta coisa de se inventar licenciaturas, quase como requisito único da (in)competência. Mas apesar destes episódios serem característicos de individualidades de altos cargos, julgo que não será justo particularizarmos os motivos subjacentes a tais episódios.

A verdade é que, lamentavelmente, vivemos numa sociedade que dá demasiada importância aos prefixos e sufixos, não só das habilitações literárias, como também à popularidade do sobrenome com que nos apresentamos. E se aliado a isto ainda tivermos a conjunção “de” ou o “e” a unir o nosso nome completo, é quase garantida a credibilidade da nossa pessoa.

Pessoalmente já tive a possibilidade de viver tanto uma como outra situação e, sinceramente, na minha humilde opinião, ambas roçam o ridículo. Licenciei-me já em idade adulta, o que em conjunto com uma mudança temporária de emprego, me valeu de imediato o “Doutora” antes do meu nome próprio, não só nos mais diversos documentos “oficiais”, como até no trato com colegas, com quem convivia todos os dias. Quem me conhece sabe bem a minha opinião sobre o assunto, ficando esclarecido desde a primeira vez que pronunciam o Dra. antes do meu nome. Recordo-me de explicar, à colega responsável por filtrar as chamadas telefónicas, qual era o meu nome próprio e que para mim, independentemente dos cargos, entre colegas jamais aceitaria tal tratamento. Dessa vez não ganhei, ela explicou-me que tinha ordens superiores que não lhe permitiriam aceder à minha vontade, pelo menos na troca de palavras por telefone.

Também no que toca ao nome de família, eu fui premiada com ambas as conjunções, o que tantas vezes em criança me intimidou, outras tantas quase que me obrigou a não as pronunciar, para me ver ilibada do quase sempre inevitável questionário sobre a minha arvore genológica, como se esta fosse de sangue diferente, de outra família qualquer. Admito, contudo, que já fiz uso ou “gozo” desta moda bem portuguesa de nos tratarmos, particularmente quando privo com pessoas de tal maneira inseguras, que fazem questão de serem tratadas em função das suas habilitações académicas. Aí sim, admito, rapidamente as ponho no sitio, não vão estas continuar a colocar-se num pedestal, que nem com três ou quatro doutoramentos, aos meus olhos, alcançarão.

Por outro lado, o inverso também acontece. Quantas e quantas pessoas, são extremamente competentes, extremamente cultas, extremamente bem formadas, exímias nas tarefas que desempenham, de uma presença sublime e admirável, sem nunca, por motivos que desconhecemos e não nos pertencem, terem posto um pé na universidade? Valem menos por isso? São menos competentes por isso? Claro que não. Nem em Portugal nem em lado nenhum do mundo. São até, frequentemente, pessoas de um nível muito superior comparativamente com diversos doutores, engenheiros, arquitetos, médicos, entre outros tantos profissionais de suposto nível superior!

Já lá vão alguns anos, mas nunca me esquecerei de um dia, acabada de entrar no mundo de trabalho, que questionei o Diretor Comercial daquela multinacional, com centenas de colaboradores, como deveria eu agir perante uma situação com que me havia deparado a determinado momento, dentro daquela empresa. Ele não hesitou, rapidamente me respondeu: “Como farias se esta empresa fosse tua?” Silenciei-me. Ainda a pensar na minha resposta, ele acrescentou: “É então dessa forma que deves fazer.” São muitas vezes, ainda hoje, que me recordo deste voto de confiança, quase como um lema orientador do meu desempenho, seja naquilo que for. Será por ventura fundamental, para se exercer determinada função, ser portador de uma licenciatura? Uma pós-graduação? Um mestrado? Quantas e quantas pessoas tenho o privilégio de conhecer, que tanto admiro profissional e pessoalmente, com quem tanto aprendo, que nunca sequer completaram o secundário? São muitas, garanto-vos. E se o posto de trabalho que ocupam, fosse da minha (hipotética) empresa, garanto-vos que não os trocaria por nenhum outro, nem mesmo com aqueles que se apresentam com um currículo de quatro ou cinco páginas!

Por último, se é verdade que é feio mentir, inventar habilitações académicas, intitulamo-nos com prefixos que não nos pertencem, também é verdade que somos nós, enquanto sociedade, que ditamos, não raras vezes, esse caminho.

 

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