Leite e Mel

Direitos Reservados

Talvez a expressão “leite e mel” invoque em vós o texto bíblico que se reporta à Terra Prometida como aquela em que corre leite e mel, na referência clara ao que ao Homem é necessário e agradável.

Reconheço que o título para a crónica de hoje me surgiu de uma forma bem mais prosaica se bem que, no seu simbolismo remoto, não seja contrário ao texto universal. No aqui e agora em que me coloco, nos Açores, neste início do ano de 2019, a fileira do leite é certamente a mais importante em termos produtivos e a fileira do mel destaca-se como um bom exemplo da agricultura açoriana.  

É verdade que não tenho regressado frequentemente à nossa agricultura desde que cessei funções na Comissão da Agricultura do Parlamento Europeu; mas não esmoreci o empenho no sector e inquietam-me medidas avulsas tomadas em gabinetes com impacto fortemente negativo na vida dos agricultores e, consequentemente, na nossa, que nos alimentamos todos os dias. Estou a lembrar-me, por exemplo, da iniciativa do Ministro do Ambiente de reduzir o efectivo de bovinos para contrariar as alterações climáticas… Não sabe, com certeza, que não somos autossuficientes em carne e que se não a produzimos outros o farão, a quem compraremos gastando mais ao mesmo tempo que empobrecemos um sector produtivo… Não haverá vias mais eficazes e impactantes para reduzir a emissão de gases poluidores? Não será preferível sermos nós a produzir, implementando regimes amigos do ambiente, como já se faz aqui, em vez de sermos compradores de produções de regimes intensivos como se vai agravar na carne brasileira?

Para aqueles que passam o seu quotidiano nas cidades e têm uma visão turística da ruralidade, de encanto pelo verde das encostas salpicado pelo branco e preto das vacas, estas ideias ainda podem encontrar alguns apoiantes. Estes serão os mesmo que não estranham que o preço do leite se mantenha invariável ao longo dos anos. O pão, por exemplo, parece que vai aumentar porque aumentou também o salário mínimo e será o consumidor a pagar o aumento. E o leite? Será difícil compreender que, por mais que o consumidor procure os preços baixos, não deva pagar o preço de produção e algum lucro para a lavoura. Sem esta rentabilidade, como será possível a modernização? Ou preferir-se-á a acusação hipócrita de subsídio dependência dos lavradores, quando os apoios europeus beneficiam efectivamente o consumidor ao manter-lhe o preço baixo do produto? A fileira do leite merece ser acarinhada pela sua produção primária como pelos bens públicos que realiza e mais ainda nos Açores.

O apoio mais recente ao sector do mel, através da elaboração de um Plano de Acção para a apicultura, é um bom exemplo do que pode ser feito com visão política e empresarial. Relembro, com um sentimento de orgulho que me perdoarão, ter iniciado este processo enquanto deputada provendo uma jornada de trabalho entre os maiores produtores de mel das nossas ilhas, no sentido de identificar as principais medidas necessárias para o desenvolvimento do sector, de organizar e potencializar a produção, tendo-se encerrado com a assinatura de um protocolo entre todos. Esta génese distante do que já então urgia ser feito concretizou-se agora porque houve vontade política.  Já podia ter acontecido há anos se os responsáveis políticos, eleitos pelo povo, trabalhassem para o povo em vez de competirem entre si. Uma vez que tal aconteça, os Açores poderiam ser a terra onde corre o leite e o mel no sentido bíblico, como terra de abundância.

www.mpatraoneves.pt


Link permanente para este artigo: http://maiscentral.com.pt/leite-e-mel/

Deixe uma resposta

Your email address will not be published.