Lá fora, a geringonça não funciona! — Opinião de Maria do Céu Patrão Neves

Patrão NevesAntónio Guterres é o novo Secretário-Geral das Nações Unidas!

Penso que a maioria de nós não acreditava que tal fosse possível quando se propôs entrar na corrida a este posto. Sim, compreendíamos que a Presidência da República não lhe interessasse e o mesmo é dizer que nenhuma função política em Portugal o atraía. A sua liderança governativa havia-se saldado por um fracasso, apontado à direita e à esquerda, admitido pelo seu partido e reconhecido pelo próprio. Uma experiência que não queria certamente repetir. Por outro lado, o seu desempenho na cena internacional havia-lhe sempre trazido sucesso significativo e granjeado elogios generalizados, além do sentimento gratificante de ter obtido resultados onde outros haviam falhado. Sobretudo o seu trabalho como Alto-comissário das Nações Unidas para os Refugiados, ao longo de dez anos, conferiu-lhe prestígio político e reconhecimento social e, mais uma vez, a satisfação de se saber útil e de promover o bem comum – o que, particularmente para um católico, constitui um elemento essencial da vida. Entretanto, o mandato de Ban Ki-moon estava a terminar e ele considerou a hipótese, algo remota – suponho – mesmo para ele, e certamente inverosímil para muitos de chegar a Secretário-Geral da ONU.

Após a apresentação de todos os candidatos, António Guterres ganhou a primeira votação e os mais descrentes começaram a prestar atenção. Ganhou a segunda e a terceira votações e os descrentes começaram a vacilar e a converter-se… À quarta vitória já todos diziam que afinal era mesmo possível e que até seria uma pena que, depois de todo um percurso de vitórias, não conseguisse vencer.

Este crescente entusiasmo ditou uma proporcional indignação à apresentação da candidatura da Vice-Presidente da União Europeia, a búlgara Kristalina Georgieva, já no termo do processo de audições e votações por que todos os candidatos haviam passado. Servindo interesses vários, nem todos claros, jogou com prerrogativas dos regulamentos para, numa estratégia pervertedora da ordem estabelecida no respeito pelo valor da integridade das pessoas e das instituições e da transparência e idoneidade dos processos, chegar (de qualquer maneira desde que legal) a Secretária-Geral da ONU. Legal?! Sim! Ético?! Não!

E quando alguns ou muitos esperariam que a diplomacia internacional reagisse a esta entrada extemporânea, a apresentação oficial de Georgieva perante as Nações Unidas foi tranquila, silenciado qualquer juízo de valor que o cidadão comum tinha dificuldades em calar. O poder esmagador da diplomacia internacional estava guardado para a primeira votação de Georgieva e última de Guterres, numa clamorosa vitória do português e não menos clamorosa derrota da búlgara com humilhante votação.

E enquanto certamente todos festejámos a vitória de Guterres, a vitória da ética sobre o direito, ouvimos o nosso Primeiro-Ministro festejar também: “Acho que as Nações Unidas se prestigiaram muito fazendo respeitar o valor da transparência e da credibilidade dos processos”, e lembrei-me do processo conduzido por António Costa desde a sua inequívoca derrota eleitoral à sua tomada de posse como PM; “em que cada candidato dissesse ao que vinha”, e lembrei-me que ninguém sabia que o PS de António Costa fosse fazer uma aliança à esquerda, o que ninguém votou; “e era uma pena que as Nações Unidas tivessem prejudicado a forma transparente como este processo decorreu com surpresas de última hora…”, e lembrei-me que este governo foi mesmo uma surpresa de última hora, inclusive para o próprio PS; “esta votação demonstrou bem que podemos confiar nas Nações Unidas e, num mundo com tantos e tantos conflitos, tantos e tantos desafios, é muito reconfortante saber que podemos confiar nas Nações Unidas”, e confirmei, pelas palavras de António Costa, que não podemos mesmo confiar em António Costa…

A geringonça é a vitória do “direito” sobre a “ética”. Felizmente para António Guterres, para os portugueses e para as Nações Unidas, lá fora a “ética” foi capaz de vencer a geringonça legal!

 

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2 comentários

    • carlos on 7 Outubro, 2016 at 12:56
    • Responder

    ele está a dar o exemplo aos Portugueses o melhor é imigrar está a seguir os passos do durão” passa macaco” ao estado que o país chegou

    • Mário Moniz on 7 Outubro, 2016 at 13:11
    • Responder

    A comparação é falaciosa e de baixeza política.
    Na realidade o que funcionou mesmo foi a força da geringonça contra o arrivismo da brigada do calhambeque que, tanto cá, como lá, tentou impor o poderio de cima para baixo quando a junção de diversas forças convergiam no mesmo objetivo.
    Ou seja, nem Cavaco, Passos Coelho e Paulo Portas conseguiram impor a sua vontade sobre uma maioria democrática em Portugal, nem Alemanha, E,Unidos e outros apaniguados conseguiram a sua na ONU.

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