Jerusalém: presente envenenado — Opinião de Maria do Céu Patrão Neves

Escrevo hoje sobre um tema que nos parece distante e alheio: o conflito israelo-palestiniano, um conflito que dura desde a proclamação do Estado de Israel, em 1947. A grande maioria da população israelita e palestiniana nunca viveu em paz. Seremos capazes de o imaginar…? Seremos capazes de o imaginar, nós, a grande maioria de nós que nunca viveu em guerra…?

Dizemos, não raramente, que só quando estamos doentes damos o real valor à saúde; mas importa não passar pela experiência da guerra para reconhecer o justo valor da paz – e esta realidade não nos é distante nem alheia.

O reacender da violência na faixa de Gaza, as vidas humanas que vão sendo sacrificadas, o sofrimento que recrudesce e se prolonga, o ódio que germina e se propaga, tudo isto é guerra, intencionalmente provocada pela inauguração da embaixada dos Estados Unidos em Jerusalém. E é assim também que a cidade de judeus, muçulmanos e cristãos, a cidade mais universal do mundo se torna refém de pequenos espíritos, que a cidade mais sagrada do mundo se macula com o ódio derramado.

A causa próxima, directa, é mais uma vez o senhor Trump. Desde que lhe deram o poder, tem-no brandindo destruindo a paz difícil e periclitante que outros construíram, e agravando a guerra que outros tentam eliminar: destruiu boas relações de vizinhança com o Canadá e com o México, e também com os seus aliados como a União Europeia e com organizações como a NATO; não aproveita oportunidades para pacificar relações, como a tomada de posse do novo presidente de Cuba; provocou a Coreia do Norte, a Síria, os palestinianos… É um homem do confronto, que se eleva sacrificando impunemente os outros. Conhecemo-los na história da humanidade, mas pensávamos que nunca mais lhes daríamos o poder.

Porém, referirmo-nos ao senhor Trump tende a tornar-se irrelevante. Parece-me mais relevante referir-me ao Primeiro-Ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, que sorria abundantemente durante a inauguração da embaixada dos Estados Unidos em Jerusalém. Fiquei intrigada: porquê…? O que é que Israel ganhou com este acto (simbólico)…? Só me ocorre dizer que ganhou um aliado, que já tinha, mas agora enfraquecido. Os Estados Unidos não são hoje mais aliados do que já eram, mas tornaram-se hoje incapazes de promover qualquer diálogo com os palestinianos, incompetentes para construir consensos, além de terem afastado os países moderados do convívio com Israel. Sorria talvez por nervosismo. Os Estados Unidos tornam-se um peso morto e o seu apoio um presente envenenado.

Regresso a Jerusalém que, não obstante a distância, sinto próxima e não alheia, como acontecerá com os milhões de monoteístas no mundo. Jerusalém deveria ser o paradigma da fraternidade humana e o espaço privilegiado para ensaiar a paz mundial – materializando a profecia do teólogo Hans Küng que, na sua obra Ética Global, afirmava que o mundo não terá paz enquanto não houver paz entre as religiões. O não reconhecimento internacional desta usurpação totalitária de Jerusalém mantém a possibilidade de uma sua partilha pacífica entre povos da Terra, germe para a paz mundial e sua verdadeira vocação ancestral.

 

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