Intolerável — Opinião de Maria do Céu Patrão Neves

O português é um povo peculiar, com traços característicos bons e menos bons, mas com um saldo bem positivo: estamos entre os melhores – de acordo com os inquéritos que refectem a imagem que temos de nós próprios. Somos um “povo de brandos costumes”, afáveis e tolerantes, qualidades que mantemos em quaisquer circunstâncias, mesmo as mais bizarras… e temos tantas no nosso espaço sócio-político…

Por exemplo, o exército foi assaltado há um ano e ninguém sabe de nada, particularmente o Ministro da Defesa que, atingido de uma amnésia galopante, cada vez sabe menos a cada pronunciamento sobre o assunto: não se conhece ao certo o que foi roubado, quando foi roubado, quem roubou e (claro!), quem é responsável. Chefias militares e governantes mantêm-se nas funções para as quais já evidenciaram ser incompetentes. Não se cai de ridículo e é pena… Continuemos…

Os professores prosseguem a greve, os alunos mantêm-se sem notas, famílias adiam ou cancelam férias, todo o processo está emperrado, senão paralisado. O governo age alterando sucessivamente a lei à medida dos seus interesses: os conselhos de turma exigiam a presença da totalidade professores para se realizarem; mas a lei mudou para permitir que faltassem uns poucos, depois mais alguns, e agora já só exigem um quórum deliberativo de um terço. Tudo isto ao longo de um mês. E mais…

No Serviço Nacional de Saúde implementa-se (finalmente) o regime laboral de 35 horas aplicado há muito para os restantes funcionários públicos. E um sistema já cronicamente subdimensionado para as necessidades e deficitário de recursos, a acusar ruptura sobretudo no período de verão, não toma quaisquer medidas compensatórias, além de manter o conflito com vários profissionais de saúde que vão fazendo greve hoje e amanhã, total ou às horas extraordinárias… é melhor não adoecer…

Podíamos continuar a desfiar este rosário…, mas não vale a pena… De acordo com as últimas sondagens o português está satisfeito com esta (des)governação e recomenda-a para o futuro.

Pouco ou mesmo nada nos perturba. Nem mesmo quando um deputado comunista, ao abandonar a Assembleia da República, afirma, em entrevista ao Expresso, que, do Parlamento leva “a confirmação da sua natureza de classe, que não é compatível com a melhoria das condições de vida dos portugueses.” Então – concluo –  ou o PCP abandona a luta por melhores condições de vida ou combate o regime parlamentar… Incrédula da rigorosa conclusão lógica regresso à entrevista. “Há pequenos passos que podem ser dados aqui, mas a história mostra-nos que os retrocessos são muito maiores. Desde há 40 anos, esta casa aprovou muito mais retrocessos do que benefícios para o povo português”. E somo à certeza de que os comunistas consideram o Parlamento um mal, a certeza de que a representatividade das decisões parlamentares também nada traz de bom… Não me apercebi da existência de qualquer reacção a palavras que criticam o regime da democracia representativa (parlamentar) a troco de um qualquer autoritarismo demagógico e não representativo.

Uma tolerância absoluta converte-se em indiferença; a tolerância, para se afirmar como tal, tem de identificar o que é intolerável. Reconheçamos, pois, o intolerável.

 

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