Há dias (e dias!) — Opinião de Inês Sá

Desengane-se quem pensa que todos os meus dias são fáceis. Não são.
Nem sempre me apetece pensar, nem sempre me apetece conversar, nem sempre me apetece ouvir, nem sempre me apetece sorrir, nem sempre me apetece escrever, em suma, nem sempre me apetece! No entanto, se há apetites que posso saciar, outros há, que a minha forma de ser e estar não me permite ignorar, mesmo sendo essa a minha maior e momentânea vontade.
Muitas vezes gostava de não ser assim… gostava de ser capaz de ficar na “ronha” e inventar uma qualquer desculpa para não me levantar – há quem diga que até é saudável… gostava de não assimilar o conteúdo de algumas notícias – há quem diga que se nos conseguirmos alhear, apenas por breves instantes, da realidade, o retorno será, invariavelmente, um momento de felicidade… gostava de não perceber quando me tentam calcar os calos – mas nisso sempre fui perspicaz… gostava de tirar os saltos, quando as forças são escassas e a paciência se esgota – mas esse pequeno prazer, só dou a quem eu quero… gostava de saber sorrir, mesmo quando estou capaz de virar o mundo do avesso – mas isso seria subestimar o meu mau feitio… gostavam que eu baixasse os braços e me colocasse à mercê da vontade alheia – mas no dia em que isso acontecer, estarei totalmente abstraída da realidade e aí, por favor, internem-me(!), porque já não há solução possível! Ai! – como eu gostava…
Mas o mundo “pula e avança” e a vida também. Há que arregaçar as mangas, levantar-me mesmo sem vontade, ler as mais trágicas notícias do dia e tentar que estas me afetem o mínimo possível, tratar dos calos quando estes apertam, calçar os saltos, sorrir com algum sarcasmo, contrariar os apetites que, em dias maus, me são mais intrínsecos e desbravar caminho…
Fui educada na premissa de que todo e qualquer compromisso é para ser cumprido, especialmente nos dias em que não é de todo essa a minha vontade, por isso, não é com esta idade, que vou conseguir quebrar este princípio, já de tal maneira enraizado, que nem uma mão cheia de dias menos bons, será capaz de abafar. É exatamente esta minha forma de estar que me leva inúmeras vezes a declinar novos desafios, especialmente quando o risco de incumprimento lhes é inerente, por muito que a minha vontade, não raras as vezes, se posicione em sentido totalmente oposto. Perdoem-me.
Fui também educada no respeito pela pluralidade de ideias, crenças e convicções, pelo que qualquer que seja o discurso mais ou menos fanático, dificilmente contarão com a minha opinião. Numa mesa familiar onde, durante anos, se sentaram 6 pessoas, a unanimidade nunca foi o nosso forte, desde o futebol, às crenças religiosas, culminando na política, a diversidade era tal, que qualquer que fosse o tema da conversa, era inevitável que esta culminasse com um ou outro amuo. Cedo aprendi a gerir esses momentos, colocando-me quase sempre à margem de um ou outro assunto que, por algum detalhe, despoletasse uma discussão mais efusiva.
Por fim, considerando esta ordem totalmente inversa ao grau de importância, a vida ensinou-me que nem tudo merece ser refutado, desmentido ou esmiuçado, especialmente quando adormecemos em paz, quando a almofada não suporta mais do que a tranquilidade da nossa consciência, a serenidade nos embala e a certeza da nossa seriedade e honestidade está presente.
Assim, nem com a plena certeza de que conseguiria cumprir com alguma elevação qualquer que fosse o confronto com a deselegância e a desonestidade alheia, melhor mesmo é não contarem comigo para esses carnavais, até porque – dizem as más línguas – que em Sto. Amaro do Pico o carnaval é bem mais divertido! E eu, sem qualquer tipo de hesitação, acredito.

 

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