Fracassos — Opinião de Maria do Céu Patrão Neves

Esta foi uma semana densa de acontecimentos que indubitavelmente merecem o destaque de uma crónica…

Considero que o mais relevante será o da utilização de dados pessoais de mais de 50 milhões de utilizadores do Face Book para influenciar o referendo sobre o Brexit, no Reino Unido, e as eleições presidenciais nos Estados Unidos, entre outros usos abusivos Não o digo por se tratar de uma “revelação bombástica”, como os órgãos de comunicação social nos querem fazer pensar. Há muito que não é novidade que, no mundo digital, a fronteira entre o privado e o público se esbateu e que os algoritmos no mundo dos Big Data permitem condicionar poderosamente as decisões de cada um, numa progressiva supressão da tão reivindicada identitária liberdade humana – e estas são as realidades que exigem a consciencialização do cidadão comum e acção concertada global de políticos.

Donald Trump também é sempre um tema divertido, quando conseguimos disfarçar o trágico de que se reveste a sua presidência. E esta semana temos um menu recheado: mais mobilidade na sua administração, mais bloqueio da informação sobre as relações ilícitas que manteve com dirigentes russos, mais subornos a prostitutas, mais declarações de guerra comercial, mais contradizer-se, mais desdizer-se… É uma catadupa de factos que nos interpela acerca da justeza dos sistemas eleitorais dos regimes democráticos.

Podia, no entanto, privilegiar um tema popular para que os meus leitores não pensem que apenas me pronuncio sobre a desgraça. Escolheria então o Dia Internacional da Felicidade! Mas a felicidade não se celebra num qualquer dia, mas concretiza-se quotidianamente na realização de si, do que cada um pode ser, e não na obsessão de ter sempre mais e melhor do que o vizinho, numa estratégia por vezes de encobrimento do vazio cavado pela ausência de sentido de vida.  Compreendê-lo ajudaria a diminuir o consumo de antidepressivos em que Portugal ocupa um depressivo terceiro lugar no ranking mundial!

O meu tema de hoje, porém, é outro: a morte do último macho de rinoceronte branco. Nunca vi um rinoceronte branco e, aparentemente, a sua existência não me fará falta… E, no entanto, sinto-o como uma perda absoluta.

Não subscrevendo as teses zoocêntricas ou biocêntricas na sua tendência para um igualitarismo biológico, defendendo uma diferença qualitativa entre o ser humano e os demais seres animais, testemunhada pela dimensão espiritual do homem, reivindico o valor inerente a toda a vida, a todas as espécies. Com esta morte há algo de único e insubstituível que se perde e que nos deixa, a todos, mais pobres.

A morte do último macho de rinoceronte branco confronta-nos com a iminência de extinção de uma espécie, com a redução da biodiversidade como herança que recebemos das gerações anteriores, e com o fracasso da nossa responsabilidade em proteger a vida na Terra.   

 

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