Escolinhas de Futebol

Opinião de Inês Sá

Não sou adepta de futebol. Nunca fui.

Durante anos e desde tenra idade quando questionada sobre a minha preferência clubística, sempre respondia que era do Futebol Clube do Porto. Ainda hoje não sei bem porquê, mas muito provavelmente porque ninguém lá em casa vestia esta camisola, aliado ao facto do meu pai orgulhosamente assumir-se como um “anti portista”. Assim dizer que era do FCP era meio caminho andado para dar ânimo a um tema enfadonho, que sempre me disse muito pouco, ou mesmo nada. Certo é que o futebol profissional havia entrado na família há duas gerações atrás, sendo ainda hoje seguido por grande parte dos adolescentes da família.

Quando aos 5 anos, depois de diversas tentativas frustradas em diferentes modalidades desportivas, questionei o meu filho sobre o desporto que ele queria fazer, rapidamente me respondeu que daquilo que ele gostava mesmo, era de futebol.

Explicamos-lhe que o desporto seria crucial para ele, uma vez que em muito pequeno se havia sujeitado a uma intervenção cirúrgica, eventualmente com consequências futuras no normal desenvolvimento do seu corpo. Admito que me coloquei um pouco à margem de todo o processo, entregando-o de bom grado ao pai, até porque na verdade, de futebol eu nunca percebi grande coisa. No leque de opções que a ilha de S. Miguel na altura apresentava, a escola eleita foi sem dúvida alguma aquela que mais se identificava com aquilo que pretendíamos para o nosso filho e se a atividade desportiva era a prioridade, os valores inerentes a esta jamais poderiam ser descurados. Nesta altura, não sendo propriamente o melhor programa para um sábado de manhã, obriguei-me a acompanhá-lo com alguma frequência, aproveitando quase sempre para ler o jornal matutino enquanto o treino decorria. Ora espreitava para o campo, ora lia mais uma notícia, até que num momento mais emotivo em que a bola em que ele acabava de perder uma disputa de bola, exclamei: “ Então? Que foi isso? Fraquito!!!” Quase de imediato percebo que o treinador se dirigia na minha direção. Após o cumprimento habitual, o que ele pretendia mesmo era dizer-me que “nestas idades era fundamental o elogio em detrimento da crítica”. Fiquei meia perplexa, quase tanto quanto envergonhada, levando algum tempo a digerir aquela observação.

Os anos foram passando e, inacreditavelmente, considerando todo o seu passado clínico, rapidamente percebi que nenhum brinquedo era tão importante quanto as bolas de futebol que se foram juntando no terraço, na garagem, na cozinha. O campo de futebol é a sua praia e é, sem qualquer dúvida, onde ele se sente verdadeiramente feliz. Admito que nunca valorizei muito esta sua aptidão, nunca incentivei qualquer atitude de vaidade, pelo contrário, fui sempre eliminando os inevitáveis tiques de vedetismo. Por outro lado, a sua paixão pelo futebol requer que muitas vezes tenhamos que o relembrar que a escola é o seu trabalho em full time e o futebol o seu part time.

Os anos foram passando, na mesma proporção em que e a competição foi ganhando terreno, destorcendo completamente o objetivo central deste part time, que sempre foi, e sempre será, a atividade física aliada ao desenvolvimento moral e social da mesma.

Repugna-me o ambiente que se vive num jogo entre miúdos, em que se ignora totalmente valores como a solidariedade, responsabilidade, cooperação, entre outros. Mas mais grave, é que os protagonistas desta faceta mais cruel do desporto de competição, são os adultos, exatamente aqueles a quem competia dar o exemplo. São eles que destroem com assustadora facilidade o ambiente positivo pelo qual se deveria pautar o desporto, principalmente quando os praticantes são crianças!

Desrespeitam os treinadores, insultam os árbitros, pressionam os jogadores, criticam os jogadores indiscriminadamente, como se todos eles tivessem a obrigação de serem “Ronaldos”, tudo em prol de uma insignificante vitória.

Por tudo isto, ao fim de alguns anos, consegui finalmente perceber aquele dia, em que a minha cara corou, ao ser repreendida não por um mero treinador, mas acima de tudo por um educador de superior competência. E vivendo apenas a competição “na bancada”, só o posso recordar com enorme gratidão!

 

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