Devaneios de domingo — Opinião de Inês Sá

Chegar a domingo e ter ainda este conjunto de caracteres por preencher, é garantidamente sinonimo de algum volume de trabalho e da consequente escassez de tempo para pensar um bocadinho no que vai acontecendo no mundo. Detesto ter “pendentes” na minha vida, opto quase sempre por resolvê-los o mais rápido possível, consciente de que esta prontidão e incontrolável vontade de resolver tudo no momento, nem sempre joga a meu favor. E à medida que os dias vão passando, as dúvidas e incertezas vão tomando proporções incomodas. Definir sobre o que devo ou não partilhar aqui, leva-me sempre à mesma questão: mas qual o assunto que quem está desse lado gostava de ver aqui abordado? São inúmeras as vezes que dou por mim a pensar, que metade do que escrevo não interessa a ninguém, mas são exatamente dessas vezes que o feed-back daqueles que se cruzam com estas minhas palavras, me chega em forma de incentivo. Estranho.

Devo admitir que passei a semana quase toda sem ver o telejornal, ou noticias nacionais. Quando isto acontece, costumo-me refugiar na “Revista Visão” ou no “Jornal Expresso”, mas nem isso consegui, porque por incrível que pareça até ao final do dia de ontem, ainda não tinham chegado à ilha estas publicações. Por outro lado, as imensas vezes que já me perguntaram, com base nesta coluna, se eu estava na politica ativa, fizeram-me refletir e concluir que não falta por este jornal diário, quem melhor do que eu se debata por essa causa. Exatamente por isso, e pela repudio que me causa, decido não ser mais uma a falar das declarações de Janusz Korwin-Mikke: “As mulheres são mais fracas, mais pequenas e menos inteligentes do que os homens”, até porque em nada contribuem para a minha, ainda que momentânea, tranquilidade. Não obstante este meu estado de espirito, não resisto à tentação de os dar nota da minha profunda convicção de que o que foi dito por esta senhor, é pensado (mas não proferido) por muitos outros. Não foram raras as vezes, em que me senti a minha presença ser totalmente desvalorizada unicamente por ser mulher. Em que percebi que a minha imagem, aos olhos do sexo oposto, em contexto profissional, se resumia a uma presença simpática, mas sem conteúdo. Às vezes ignoro, opto por me comportar em consonância com as expectativas que injustamente em mim depositaram, mas apenas o faço por estratégia, porque quase sempre surge a oportunidade de mostrar a essas mentes mais machistas, que a competência, o conhecimento, a perspicácia e profissionalismo, não é, nem nunca será, passível de se quantificar ou qualificar, em função do género!

Por cá, felizmente que ainda vamos tendo motivos para não deixar morrer a esperança. Foi pelo menos isso que pensei quando confrontada com as últimas notícias no âmbito da Educação. Parece que finalmente se ganhou coragem e que vai mesmo avançar, a nível nacional, o projeto-piloto da flexibilização curricular nos 1.º, 5.º, 7.º e 10.º anos. Ufa! Parece até que finalmente vamos reforçar as TIC – Tecnologias de Informação e Comunicação nos 5º e 7º anos e que a Educação Física será reforçada! Isto visto assim de repente parece uma miragem… Fala-se mesmo de dar à escola a possibilidade de parar de cumprir o programa durante uma semana do 1.º período do ano letivo e realizar trabalhos e projetos com temas específicos como a crise dos refugiados, a Europa, o Ambiente. Espero que este seja apenas o começo da reforma que se impõe na educação, e que quem decidiu finalmente agitar a máquina, não se deixe ficar pelo caminho.

 

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