Cumplicidades — Opinião de Maria do Céu Patrão Neves

Na apresentação de Ética Aplicada: Política, o jornalista António José Teixeira citou: “A política é a gestão da coisa pública que, em democracia, confiamos a alguns que elegemos como nossos representantes. Estes, enquanto representantes eleitos, devem servir primeiramente os interesses da comunidade e não os seus próprios interesses, particulares, os quais, contrariamente ao que acontece com os do cidadão comum, têm de ser relegados para um plano secundário e sobretudo para uma dimensão que não intersecte com as suas funções políticas, em que o conflito de interesses eclodiria, inquinando a imparcialidade de qualquer decisão.“ Perguntou então, provocadoramente, se não estaríamos a colocar a fasquia demasiado alto para pessoas que, afinal, são como todas as demais?

Como autora do texto senti-me interpelada… Repensei-o então e repenso-o agora de novo e tendo a manter a mesma resposta. Em democracia, os nossos iguais que elegemos como políticos deveriam ser os melhores de entre nós, os que se pudessem destacar como exemplo e que, durante o tempo em que exercessem funções políticas, colocassem os interesses do colectivo, da comunidade, acima de quaisquer individuais e, por isso, acima dos seus também. Dir-me-ão que esta não é a realidade e reconheço-o tão fácil como tristemente.

Mas é possível. Sabemo-lo por experiência própria quando, em família, colocamos o seu bem-estar acima do nosso. Sabemos também que os políticos que ficaram na história, como Nelson Mandela, foram aqueles que também cumpriram este exigente modo de agir. Sabemos, pois, ser possível mas contentamo-nos com os gestores dos pequenos grandes poderes que temos. Estes políticos comuns são, de facto, meros gestores de lugares que hoje distribuem para garantirem a manutenção do seu amanhã; meros gestores dos dinheiros públicos que administram hoje para garantirem a sua eleição amanhã. Sabem, porém, que já cá não estarão depois de amanhã…, pelo que lhes basta insuflar medidas que assim aparecem hoje relevantes, mas com o prazo de validade para depois de amanhã quando murcham.

Não vale a pena cair no facilitismo perverso de apontar o dedo aos políticos e insultá-los. Além de ser injusto para alguns, fomos nós que, votando ou abstendo-nos, os promovemos a governantes. De facto, não só nos “contentamos” com estes gestores da coisa pública como os “elegemos”. E fazemo-lo quando consideramos que vamos, cada um de nós, individualmente, ficar hoje melhor. Ou seja, mesmo que consideremos o depositário do nosso voto como esse gestor de interesses próprios destituído dos valores morais em que assentam todas as democracias – “o da integridade, da pessoa, do político, e o da transparência, dos processos, da acção política”, como afirma Ética Aplicada: Política – damos-lhe o nosso voto cumplicemente se nos prometer uma vida melhor. Então vendemos os nossos valores por quem mais promessas oferecer, tornando-nos mercenários destes gestores de ilusões.

É assim que, no Brasil, se dá o voto a um homem que combate os direitos humanos, desde a assunção de posições racistas e machistas à proposta de proibição de reprodução dos pobres, e que hoje lidera as sondagens para a presidência.

Entre nós, desejo que o novo líder do PSD desautorize quem durante a campanha o acusou de ser cúmplice da coorte do passado (alguns dos quais escondendo mal a mesma intencionalidade política com outros nomes) e mostre no PSD o que tem sabido mostrar na Ribeira Grande: servir um interesse colectivo para além de quaisquer individuais!

 

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