Contas feitas — Opinião de Inês Sá

Assim fechamos mais um ano de vida. É reconfortante recordar os momentos com que o ano, agora terminado, me brindou, umas vezes de forma direta outras indiretamente. Foi um ano intenso, em que nem sempre havia a certeza do rumo a seguir, mas os passos foram sendo dados mesmo quando as pernas pareciam não aguentar o peso de algumas decisões, tremelicando ao ritmo de cada passada. Tive momentos em que as lágrimas se confundiam com sorrisos, em que as certezas perderam força, em que a força se esbarrou com fraquezas, em que as presenças se deixaram vencer pelas ausências, em que as distâncias deram corpo a um profundo e encorajador abraço. É a vida! – Disse-me a minha mãe, vezes sem conta. Ela que, inexplicavelmente, sempre se convenceu de que a mina força é infinita e inabalável…

Foi um ano de recomeços, de despedidas, de adaptação, tanto para mim como para os meus. Com mais de 20 caixotes às costas decidimos recomeçar a nossa história noutra ilha, numa outra casa, noutra escola, noutros trabalhos, assumindo desde logo o inerente agigantamento da responsabilidade que inevitavelmente se afigurava. Facilmente me deixo seduzir pelo desafio de uma mudança, talvez porque sempre tive a sorte de tudo dar certo e desta vez não foi, aliás não tem sido, diferente. Consciente do meu característico mecanismo de defesa, que geralmente bloqueia qualquer possibilidade ao surgimento de uma empatia imediata, apresento-me quase sempre com a convicção de que tudo terei de conquistar, pelo que num primeiro momento espero sempre muito pouco, ou mesmo nada. Sempre fui assim, é certo, uma grande parte por culpa do feitio, mas maioritariamente por culpa ou inocência da vida. Costumo dizer que “todo o osso que pego é difícil de roer”, dificilmente sou bafejada por alguma sorte, o que me leva a encher a boca ao dizer que tudo o que orgulhosamente conquisto, ou fatalmente perco, se deve unicamente a mim, ao empenho que coloco ou não nas coisas, nas relações, no trabalho, na minha conduta, nas minhas mais ou menos (ir)responsáveis atitudes.

Este reinicio tinha por isso tudo para em nada ser diferente, mas o certo é que foi. A empatia com os colegas foi quase imediata, o enamoramento pela casa foi crescendo a cada noite, a adaptação dos miúdos foi extraordinariamente fácil, a aceitação numa pequena sociedade frequentemente considerada “difícil” não corresponde de todo com a minha realidade.  Pelo contrário, este ano brindou-me com pessoas fantásticas, de uma disponibilidade impar, capazes de me terem feito sentir verdadeiramente em casa em menos de meio ano. Bem hajam companheiras/os! Estou certa de que a vida me dará a oportunidade de retribuir todo o carinho que tanto eu, como os meus, temos recebido.

E também do outro lado do oceano a vida me brinda, desta feita com o nascimento de mais uma sobrinha, que juntamente com a visita a Portugal das outras duas sobrinhas, foram o pretexto perfeito para rever a família e amigas eternamente especiais, para desfrutar do sabor de abraços que transbordam de saudade e emoção, ao mesmo tempo que recarregam energias para mais uma longa temporada de ausências.

Quanto a 2017 – contas feitas! Venham mais destes, recheados de desafios, capazes de enganar toda a fragilidade de que sou feita, porque ao contrário do que diz a minha mãe, eu ir vou, mas vou quase sempre cheiinha de medo!

Por fim, deixo-vos os meus mais sinceros votos de que este novo ano seja repleto de bons momentos, porque é também destes de que é feita a vida, e que esta seja capaz de despertar o que de melhor há em cada um de nós. Haja saúde!

 

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