Cidadãos do Mundo

Opinião de Maria do Céu Patrão Neves

Bolsonaro vai ganhar a presidência do Brasil. O que há algumas semanas parecia impossível (pela elevada taxa de rejeição), tornou-se hoje inevitável (pela objectividade da leitura política que sustenta as previsões). Eis o não pode deixar de causar alguma perplexidade em quem vive plenamente a democracia e os seus valores de dignidade pessoal e solidariedade social como seu próprio modo de ser e de estar no mundo. Mas também os brasileiros que vivem em Portugal votaram massivamente num candidato que seria absurdo entre nós…

Perguntar-me-ão qual o interesse das eleições brasileiras para Portugal ou, mais concretamente, para os Açores. Afinal, não se trata do Brexit, que sabemos afectar negativamente a União Europeia em que nos integramos e debilitar o orçamento de que beneficiamos fortemente, além de prejudicar relações comerciais entre muitos outros aspectos. Também não se trata das consequências nefastas da administração Trump dos Estados Unidos, país de acolhimento, de vida e de prosperidade de muitos açorianos, e com o qual mantemos relações não apenas lucrativas, mas sobretudo afectivas.

Temos relações com o Brasil…? Sim, sem dúvida. Florianópolis é considerada a 10ª ilha dos Açores … Mas nenhum dos nossos relacionamentos privilegiados com o Brasil, em que se destaca o cultural, é significativo e directamente importante para o nosso presente ou no previsível futuro.

A nossa preocupação com o Brasil é mais remota e ampla, como cidadãos do mundo que observam uma indisfarçável tendência para a proeminência de valores contrários aos democráticos e pluralistas, solidários e tolerantes em várias partes do mundo.

Não esperem que enquadre o problema entre um pendor à direita ou à esquerda. Qualquer dos extremos é anti-democrático; apenas as estratégias são diferentes. Nestes últimos casos que destaquei, a particularidade é o poder não ter sido tomado de assalto, como nas ditaduras tradicionais, ou por estratégias constitucionais como nas ditaduras modernas de que são exemplo a Rússia ou a Turquia. O poder é oferecido pelo povo, pelos cidadãos eleitores. Será uma opção assumida…? Ou consequência das circunstâncias…? No Brexit, disse-se que a vitória foi construída no espaço rural, por idosos nostálgicos de um Reino Unido imperial… Nos Estados Unidos, sublinhou-se que Trump teve menos votos que Hillary Clinton e que a organização do sistema eleitoral é que elegeu o actual presidente… No Brasil, as taxas record de rejeição evidenciam que o voto é pela negativa: as pessoas estão cansadas do PT e querem mudança, sendo que apenas Bolsonaro (há muito na política e nunca votado) protagoniza a mudança. Circunstâncias…

Para além das circunstâncias particulares e supostamente pontuais, a verdade é que o alastramento da rejeição dos valores que que constroem as nossas sociedades hodiernas ameaça a sua sustentabilidade, o que diz respeito a todos. O que se passa no mundo, mesmo distante, interpela-nos e compete-nos responder pelos meios que estiverem ao nosso alcance. Hoje foi através desta crónica….

 

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