Bom político precisa-se!

O Ministro das Finanças, Mário Centeno, afirmou, esta semana, em Davos, ser muito importante que a instabilidade e as indecisões políticas se pudessem sanar de forma clara e rápida pelo impacto muito negativo que têm na economia mundial.

Não havia nas suas palavras o que os mais desconfiados poderiam apontar como uma minimização do debate político em prol do desenvolvimento da economia para enriquecimento dos habituais… Não era esse o sentido das suas palavras, nem tão pouco a orientação da minha reflexão de hoje. A ideia era a de que a indecisão política de potências mundiais e a instabilidade decorrente, têm consequências negativas que afectam não apenas os países em causa, mas arrastam muitos outros para um desaceleramento da economia.

A preocupação de Centeno tinha obviamente um destinatário em mente…, sendo impossível não pensar em Trump e nas suas decisões tão repentinas como inesperadas, tão surpreendentes quanto agressivas, que destroem a estabilidade e confiança indispensáveis para qualquer investidor. Os tweets presidenciais, uns meros 120 caracteres de texto, podem hoje destituir presidentes, eleger capitais, facturar acordos mundiais…, sendo que ao longo do dia serão secundados por muitos outros tweets não raramente de sentido contraditório…

Pensamos também, e necessariamente, na actual situação do Reino Unido, uma triste telenovela sem fim propriamente anunciado mas que, em qualquer caso, se sabe ir ser infeliz. Era uma vez um Primeiro-Ministro, David Cameron, que, pretendendo reforçar o seu poder nas eleições de 2015, lançou uma estratégia para capitalizar votos dos eurocépticos prometendo um referendo à saída do Reino Unido da União Europeia. Não tinha então qualquer intenção de avançar com o referendo mas as circunstâncias politicas prenderam-no à promessa. O referendo foi convocado e a surpresa chegou com a opção pelo Brexit, não obstante objectivamente implicar recuos muito significativos nos planos social e económico, para 28 países, isto é, para os 27 europeus e para o Reino Unido ainda mais. Cameron, europeísta convicto, perdeu tudo o que queria e mais do que podia esperar. A sua ambição pessoal lançou o país para um caminho muito tortuoso e sem destino….

Hoje temos Theresa May a defender o Brexit até à exaustão, quando fez campanha pela permanência na Europa; temos uma oposição a dizer que vai negociar com 27 Estados Membros, depois de todos eles terem fechado a negociação; temos o dia do divórcio político a aproximar-se, na iminência de um não acordo… e, não obstante, nenhum político inglês consegue fazer valer uma ideia acerca do destino do país que continua entregue a posições autistas e contraditórias que se excluem mutuamente, criando uma situação de insustentável paralisia  politica… Aceitar o acordo, fazer um segundo referendo, adiar a saída… – ninguém sabe bem o que quer e também ninguém quer assumir a responsabilidade de uma decisão.

Ainda para além das palavras de Mário Centeno, o nosso problema é o decréscimo da qualidade dos políticos de que, aliás, somos responsáveis. Afinal, para um político empenhado como é hoje Theresa May, quem quer trabalhar de manhã à noite, 7 dias por semana e sem férias, por um ordenado mediano, facilmente ultrapassado por qualquer funcionário liberal com a vantagem deste não ser insultado quotidianamente, faça ele o que fizer…. São poucos, são cada vez menos, os que aderem à politica por empenho cívico e na convicção de que podem fazer algo em beneficio da sociedade, em prol do bem comum. Além disso, os poucos que assim se encontram animados e sobretudo se fazem um bom trabalho, são aniquilados pelos donos dos partidos que vêem nestes novatos da política ameaças aos domínios dos seus controlos.

O que pretendo sublinhar nesta crónica, ainda remontando ao apelo de Centeno em Davos, é que a qualidade geral dos políticos vem decaindo nos vários níveis em que intervêm, por falta de ambição própria, por castigo dos cidadãos e pelo controlo dos partidos, sendo que as consequências económicas são fortes e as repercussões sociais graves, abatendo-se sobre todos nós. Precisamos de bons políticos e temos de contribuir para que surjam.

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