Argumentos com mais de 40 anos

Opinião de João Costa

João Bruto da CostaJorge Coelho, ex-ministro do Partido Socialista que faz comentário político na televisão, referia, recentemente, que essa história de apelidar de antipatrióticos os elementos das oposições que criticam o governo é coisa do tempo antes do 25 de Abril de 1974, ou seja, é coisa do tempo de Salazar e de Marcelo Caetano, que é como quem diz, é argumento do tempo da ditadura.

Este ex-ministro socialista fazia este comentário na sequência das afirmações proferidas pelo líder parlamentar do PS na Assembleia da República, Carlos César, que a propósito de serem feitas críticas à execução orçamental se referiu à oposição como estando a atacar Portugal e, portanto, a terem uma atitude pouco patriótica.

Este tipo de argumentos de que quem faz oposição aos governos está contra o país é coisa a que temos assistido nos Açores, há já largos anos, em muitas vertentes da actividade politica.

Os Governos do partido socialista, ao longo dos últimos 20 anos rapidamente passaram a conviver mal com a crítica, com os insucessos e com quem vai denunciado as más políticas que atiraram os Açores para a cauda dos indicadores sociais e económicos da Europa.

É recorrente que sempre que alguém alerta para a má governação seja apelidado de estar contra os Açores, sempre que alguém se insurge contra o governo do PS que esbanjou milhões de oportunidades para desenvolver os Açores, logo alguém do PS acha que essas pessoas não gostam dos Açores.

Na verdade, são os mesmos argumentos que agora se ouvem, por parte de quem influencia o PS a nível nacional, e que nos Açores comanda um Governo que se arrasta no poder vai para duas décadas. Mas são argumentos que vão ainda mais longe e que apelidam quem critica as políticas agrícolas que atiraram para a falência muitas explorações dizendo que essas pessoas são contra os agricultores! Ou que, quando alguém se insurge contra um governo que levou centenas de pescadores a passar por dificuldades ao ponto de lhes propor um resgate de não acarinharem os nossos profissionais da pesca.

Quem tem assistido com atenção a estas formas de fazer política, por parte de quem nos Governa, sabe bem que muitas vezes temos de conviver com este tipo de argumentos que procuram calar quem alerta para os insucessos da governação, tentando que as oposições sejam vistas como não querendo o sucesso dos Açores quando, na verdade, é exactamente o contrário.

Hoje, felizmente, já há maior escrutínio sobre esta forma do poder tentar descredibilizar a oposição, hoje, felizmente, já mais pessoas não vão nessa conversa de que não se pode criticar ou de que não se pode denunciar os insucessos da governação.

O poder que pretende confundir-se com a região, querendo que ninguém possa criticar as suas políticas, rotulando as pessoas de serem contra os Açores ou contra os açorianos, pode confundir-se, de facto, com uma forma de fazer política própria de outros tempos, em que o Estado tinha um só partido, e em que quem não estava do lado desse partido estava contra o Estado.

Nos tempos de hoje, argumentar a favor do governo apenas com o ataque às oposições, dizendo que quem não está ao lado do poder está contra os Açores é a confissão de que nada há para dizer que afaste a razão de quem luta por uma região mais desenvolvida, reduzindo a pobreza e onde a igualdade, a coesão social e territorial não sejam apenas conceitos abstractos.

 

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