A violência por detrás dos números

9 mulheres assassinadas em contexto de violência doméstica, em Portugal, num único mês, Janeiro de 2019; 28 mulheres mortas em 2018 e um total de 503 desde 2004. Estes são números da vergonha!

Pergunto-me: porquê retomar o tema da violência doméstica quando já vem habitando o nosso quotidiano, numa presença que se agrava…; porquê repetir os números que esta semana têm martelado a nossa consciência colectiva, quase empedernida pela resignação da sua inevitabilidade ou talvez também como mecanismo de defesa para com o que necessariamente nos agride…

Estes, ou quaisquer números da violência doméstica, devem de ser repetidos enquanto subsistir um único porque qualquer morte, e mesmo uma só, à mão de quem se ama ou amou, de quem se confia ou confiou, com quem se partilha ou partilhou a intimidade dos afectos é totalmente desproporcional e de uma violência absoluta.

E valerá a pena comentar estes números? Não falam eles por si? E não terá já sido tudo dito? Desde o exortar à não aceitação da violência, à organização de estruturas de acolhimento e acompanhamento, à exigência de mecanismos de protecção a par de sanções efectivas e proporcionais aos danos físicos e psicológicos? Ou estaremos perante um bom planeamento e uma deficiente execução, atropelada pela crónica escassez de meios humanos e financeiros para o que sabemos ser urgente? Sabemos também que a resposta é afirmativa a todas estas interrogações e que o muito que já se fez a estes níveis não dispensa nem pode abrandar o muito que está por fazer…

Pergunto-me ainda se seremos hoje uma sociedade mais violenta ou mais consciente da violência? E também aqui me parece que a resposta continua a ser afirmativa a ambas as interrogações. Estamos indubitavelmente mais intolerantes em relação à violência doméstica: há denúncias destas situações e intervenções quando estas decorrem em público, vencendo o receio de ingerência abusiva na privacidade de cada um ou mesmo de represálias. Mas, simultaneamente, o excesso de individualismo em que alguns se refugiam, para ter sempre razão e se destacarem como superiores aos demais, é de um autismo agressivo que anula o outro como outro. O individualismo que grassa nas nossas sociedades, estruturadas mais sob o princípio da liberdade do que da responsabilidade, organizadas mais para a defesa dos interesses de cada um do que para a promoção da solidariedade entre todos, este egocentrismo consentido e mesmo promovido gera intolerância perante o outro, diferente de si, instrumentaliza o outro subordinando-o aos seus interesses, anula o outro na sua identidade.

A aceitação do outro como outro não se trava apenas nas causas fracturantes, mas também e sobretudo no quotidiano familiar em que todos nós podemos fazer melhor e assim contribuir para uma cultura da alteridade que possa ir mitigando, até anular, a ignóbil violência doméstica.

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