A impunidade do poder

Opinião de Inês Sá

InesPermitam-me partilhar convosco um pequeno exercício: imaginem o seguinte episódio…

A exercer funções num qualquer departamento governamental ou até numa empresa pública, entram no carro de manhã, rumo a mais um dia de trabalho. Ainda ensonados, distraem-se e vão contra o passeio. Rompe-se um pneu.

Com alguma dificuldade, lá conseguem com que o automóvel percorra mais meia dúzia de metros, até que chegam mesmo perto do local de trabalho. Ainda meio atordoados, pedem ajuda a um colega e no espaço de 15 ou 20 minutos conseguem substituir o pneu.

Este simples imprevisto, num ambiente de trabalho hostil, daqueles que infelizmente ainda abundam por aí, pode desencadear uma série de agruras a todos os seus intervenientes. Podemos começar pelo colega que tão amavelmente se disponibilizou para o ajudar a substituir o pneu.

Este, assim que regressa ao seu posto de trabalho, é chamado de imediato ao seu superior hierárquico, o qual lhe transmite que não deveria nunca ter-se ausentado. De seguida, e ainda insatisfeito com o uso e abuso do seu pequenino mas altivo poder, segue com as suas imorais reprimendas, dando assim continuidade à ronda de opressão, que tanto bem lhe faz ao ego.

Previsivelmente, eis que chega a vez do infortunado funcionário, que com algum esforço e muita má disposição, se acaba de estrear no manuseamento de chaves de porcas, macaco e pneu sobresselente.

Segundo dizem os experts na matéria, o facto de este funcionário ter sido auxiliado por um recurso humano pago pelo erário público, poderá eventualmente, em última ou primeira instância (depende da intencionalidade), ser motivo para a instauração de um processo disciplinar, no qual este seria acusado de utilização abusiva de recursos públicos.

Mas isto só se sucede se for o funcionário o protagonista da história, porque se for o seu superior a ter um azar semelhante, basta-lhe encostar o carro e solicitar a um qualquer recurso público que dedique o seu dia a resolver-lhe o problema, e que não se esqueça de informar o colega motorista que deverá ir buscar o seu filho à escola, à hora e no sítio do costume, ou já agora que faça umas comprinhas para a despensa lá de casa!

De tão surreal que é, pode até parecer um cenário fruto de uma imaginação demasiado fértil, mas garanto-vos que não é e que lamentavelmente tudo isto aconteceu na realidade.

Agora, recordemos o cenário com que fomos brindados recentemente. Dois secretários de Estado viajam a convite de empresas privadas, para assistirem a jogos do Euro 2016. Não fosse o convite só por si suficientemente duvidoso, ficamos ainda a saber que um dos Secretários de Estado “premiado” com tamanha bondade por parte da petrolífera Galp, tem à sua responsabilidade (enquanto representante do Estado) um processo de contencioso com a referida empresa, que envolve a módica quantia de mais de 150 milhões de euros!

Ora, segundo dizem os experts na matéria, o referido secretário é uma pessoa irrepreensível, idónea, credível, de uma honestidade louvável, que até já anunciou, (não vá haver aí um português mais desconfiado!), que irá reembolsar a Galp do custo desta sua deslocação, para que “não restem dúvidas sobre a independência do Governo e do secretário de Estado”.

Desta forma, o assunto passa rapidamente a ser matéria proibida, sobre a qual nenhum membro do Governo se deverá pronunciar.

Como diz o povo, “não há nada que o tempo não cure”, o melhor mesmo é colocar uma pedra sobre o assunto e siga a marcha! E o processo disciplinar? E a demissão? A intimidação?

Pois, distração minha não ter reparado que tudo isto aconteceu ao mais alto nível, que jamais deveria ser matéria de foro público, aliás à semelhança do que normalmente se sucede quando o favorecimento ou o uso abusivo da coisa pública se desenrola em altos cargos.

A verdade é que vivemos num País onde o “grande” sempre se salva, que mais não seja porque já se tornou tão vulgar a existência deste tipo de “politiqueiros”, isentos de princípios, de valores, de “coluna vertebral”, que para o cidadão comum já nada tem de anormal. Mas pior do que isso, é que já estamos todos tão descrentes, tão embrenhados nesta podridão, que de forma mais ou menos inconsciente, somos os primeiros a permitir que episódios desta gravidade, passem a fazer parte do passado, quase que por magia, não só com a ajuda do tão precioso tempo, como também com o apoio e a conivência de uma imensidão de seguidores, normalmente inerente a este tipo de cargos, desistindo da justiça e deixando a impunidade à sua mercê.

 

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