A (des)inquietação de setembro — Opinião de Inês Sá

InesO mês de setembro vem carregado de afazeres… obriga-me a devolver o calendário à parede da cozinha, a recuperar rotinas, a fazer as pazes com o relógio, a devolver às lancheiras o seu cheiro peculiar, a reconquistar a seriedade que assumidamente abandonei no final do ano letivo anterior.

E se nós, os adultos, ainda andamos a curar a inevitável depressão do final do Verão, oscilando entre a aceitação da mantinha que já nos aconchega quando cai a noite e a resistência em acrescentar aos nossos pertences aquele casaquinho para um passeio ao final do dia, as crianças vivem dias de uma agitação enlouquecedora.

A mistura do final das férias, da conquista de alguma liberdade, do despertar de uma primeira paixão, da conquista de alguma independência, juntamente com a ansiedade do início de mais um ano e a angústia de uma mudança de ciclo, é, no mínimo, explosiva!

E se no meio disto tudo acrescentarmos uma mudança de residência, de ilha, de casa, de quartos, de camas, de cozinha, de percursos, de paisagens, de supermercado, de escola, de recreio, de colegas e amigos, entre tantas outras novidades, onde tudo é ainda quase totalmente desconhecido, o resultado é indecifrável!

Por norma, reservo sempre os 15 dias que antecedem as aulas para que se adaptem de novo a este modus operandi, embora hoje esteja perfeitamente consciente, de que nem o dobro do tempo conseguiria fazer o milagre que, quase desesperadamente, nesta fase particular, eu procuro, ao mesmo tempo que ainda me permito vacilar entre o incutir destas novas (ou velhas) rotinas, em simultâneo com a flexibilidade que se impõe, num período que, a bem da verdade, ainda é de férias.

Recordo-me que esta era a altura do ano em que, a mesa da cozinha da minha infância, era completamente tomada de assalto por livros escolares e rolos de papel transparente, tesouras e etiquetas, num apelo nem sempre subtil, para que todos colaborassem naquele ritual. Nem todos os livros cheiravam a novo, anos houve em que os livros da minha irmã (com mais 2 anos do que eu) sofriam, naquela mesma mesa, apenas um lifting estético, contrastando a juvenilidade da capa e da contracapa, com a 3ª idade bem enrugada do conteúdo. Infelizmente, apesar dos enormes desenvolvimentos na medicina estética, interesses maiores se levantam e impedem que este ritual hoje se repita, fazendo com que todos os anos seja alterado, apenas e só o suficiente, para que um livro usado no ano transato seja automaticamente considerado desatualizado. Lamentavelmente, o livro passou a ser considerado também material descartável e a ter um prazo de validade semelhante ao dos iogurtes. Coisa moderna, consequência de um lobby antigo.

A porta do frigorífico já iniciou os seus habituais preparativos e anseia a chegada dos respetivos horários, que vêm agora fazer companhia ao tão odiado mapa de tarefas domésticas. O cabide das mochilas vem sendo reforçado, à medida que os anos letivos vão passando e o peso dos livros aumentando, exatamente na mesma proporção, qual acréscimo de responsabilidade e de conhecimento!

Aproximam-se dias de alguma ansiedade, não só para as crianças, como também para nós, enquanto mães e pais. Confesso que a mim me custa especialmente, o momento em que somos obrigados a divergir em sentidos opostos, no qual é suposto nós, adultos, transmitirmos calma, serenidade e segurança, quando esta separação me faz sentir o coração a saltar na garganta, as lágrimas a suplicarem liberdade, as pernas bambas, as mãos trémulas, o carro vazio. Assim sou eu, que nunca tive o mínimo jeito para a encenação, desprovida de tudo aquilo de que frequentemente me revisto, particularmente na presença de cenários ou até mesmo personagens, imprevisíveis.

 

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