A democracia em risco — Opinião de Maria do Céu Patrão Neves

Patrão NevesNão, tenho de reconhecer, ainda não me refiz do choque do resultado das eleições presidenciais norte-americanas. Não por fazer parte daquele grupo maioritário que considerava que Trump jamais chegaria ao poder. Pelo contrário, há muito receava que tal pudesse de facto acontecer, e de uma forma assumida desde que ele se tornou o candidato republicano. Afinal, se era possível que este partido o apoiasse também seria possível que aquele país o fizesse. Mas a verdade é que nunca me quis preparar (psicologicamente) para este acontecimento. Parecia-me que seria agourar o resultado…

Mas aconteceu e abalou-me. Depois de uma noite quase “em branco”, despertei estremunhada para um mundo que não conhecia… Não me lembro exactamente como se apresentava porque só recordo poderosas nuvens cinzentas, tempestuosas, ameaçadoras…

Olhei para o lado e encontrei um dos países que mais preponderantemente decide o destino do mundo – os Estados Unidos – a ser liderado por uma personagem infantil, num pungente egocentrismo, no imediatismo e simplicismo do raciocínio, na ignorância da existência de uma humanidade e de um planeta… Uma infantilidade patológica que o poder conquistado converte numa monstruosidade pela incapacidade de compreender que existe uma realidade diferente da sua, que existem pessoas diferentes dele próprio, que existe um mundo para além da sua torre e que a convivência pacífica não se faz através de caretas, birras, insultos e ameaças. De facto, Trump representa tudo o que rejeito: o xenofobismo, o racismo, o sexismo, associados à arrogância da ignorância e ao autoritarismo do poder.

Olhei para o outro lado e encontrei um dos países que ainda recentemente disputava a liderança do mundo com os Estados Unidos. Refiro-me à Rússia, hoje governada por um ditador – Putin –, que tanto é Primeiro-Ministro, como Presidente, desde que o poder lhe pertença. E não só internamente. Desde 1999 que alimenta um nacionalismo agressivo e mais recentemente bélico com a anexação da Crimeia, em 2014. A Ucrânia, como os demais países da Europa de leste, sabe estar sob a ameaça de um exército poderoso, comandado por um expansionista dominador.

Baixei o olhar e encontrei um país onde está em construção uma ditadura feroz cuja evolução é ainda desconhecida, excepto pelas lições da história que teimamos em esquecer. Na Turquia assiste-se ao decapitar – suponho que ainda só metafórico – das cabeças pensantes. Afastaram-se os professores universitários, magistrados, jornalistas; esta semana entrou-se na fase dos autarcas, reduzindo-se a população activa aos que se diluem na massa anónima facilmente manipulável. Entretanto Erdoğan afirma publicamente que o país não pode ficar prisioneiro das suas fronteiras físicas e quando já teve um vasto império. Tal como a Rússia também parte do território da Turquia é europeu e é a Europa que, a leste, de norte a sul, está sob ameaça.

Senti-me perdida, frágil, à mercê…, numa Europa cada vez mais debilitada pelos riscos que se avolumam a leste e o novo perigo que se ergue a oeste; debilitada também por um Presidente ausente e sem liderança, e pelos interesses nacionalistas, alimentados por políticos irresponsáveis, que comprometem a união.

Mas não enveredo pelo discurso desresponsabilizador de que são os políticos os culpados. Em democracia, os políticos só o são se os elegermos. Putin tem sido eleito, Erdoğan continua a ser eleito, Trump foi eleito.

Foi o povo que votou no Brexit que, objectivamente, prejudica toda a sociedade; que votou em Putin e Erdoğan que, realisticamente, não hesitam em desencadear a guerra para aumentar o seu poder; que votou em Trump que, orgulhosamente, exclui a dedo da sociedade aqueles de quem não gosta. A culpa é, de facto, nossa.

A democracia exige que o cidadão se informe, reflicta, se empenhe; exige uma cidadania esclarecida e responsável.

Não, ainda não me refiz do choque do resultado das eleições presidenciais norte-americanas. Nem sobretudo de uma consciência cada vez mais aguda das ameaças de implosão da democracia, quando a maioria vota na destruição.

 

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